04 junho 2006

O Céu os juntou de novo

(Extraído da capa do álbum "Duo Ouro Negro - Lindeza")

"N'gola 1483...
E no horizonte surgiu uma canôa gigantesca com velas brancas, que se aproxima veloz, cada vez mais, com o vento...
Era o Homem Branco que chegava; numa mão uma cruz, na outra a espada. Nos olhos, um brilho estranho de espanto, de cobiça, de triunfo. Ao som dos kissanges, marimbas e txingufos, ele desembarcou, calçando os pés com Terra Negra.
Então N'gola viu a sua terra esventrada gritar de dor e transformou-se. Viu seus filhos serem levados para outros mundos. Conheceu uma nova cultura, uma nova violência, a intolerância que se abatia sobre a sua Terra.
N'gola adormeceu um sono longo e agitado, cheia de vozes no peito, crescendo, crescendo tanto que, num alarido despertou... e a voz dizia:
- Não durmas mais... Não durmas mais...
Era Novembro e as acácias vestiam-se de garrido vermelho.
O Sol vinha a nascer com um brilho novo, sobre a Terra perfumada de Tamarindo e Jambo... uma Lindeza!
Raul Indipwo" (in: album Lindeza, 1979, ed. Orfeu)
Ontem tinha sido Milo MacMahon, hoje juntou-se-lhe Raul Indipwo.
E assim o Céu vi sentir o prazer que nós cá em baixo muitas vezes sentimos.
A bela música angolana na voz daqueles dois exímios trovadores que tão belas e sentidas canções nos deixaram.
Quem é que não se recorda de Kutikutéla, Maria Rita, Muxima, Sylvie, Lindeza, Vou levar-te Comigo, Mama Esperança, Quando eu Voltar, Comboio Mala de Benguela, Tweza, Camisa de Amigo, Ter amigos é Fortuna, etc.
Até sempre Milo! Até sempre Raul!

6 comentários:

Anónimo disse...

É isso. É mais um pedaço de Angola que parte. Todos ficamos mais pobres. Faltam palavras, sobram emoções. Vou acender ma vela...

Orlando Castro

C. Vilafanha disse...

Sou Angolano, conheci pessoalmente quer o Raul quer o Milo. Angola, todos os Angolanos e a cultura do mundo ficaram muito mais pobres.
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Uma vez li que se eles não fossem de Angola / Portugal, poderiam ser dos melhores músicos de World Music.
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Paz à sua alma.
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http://toxicidades.blogspot.com

Anónimo disse...

Pois é, meu caro. É a sensação de vazio. De mais um vazio. E são tantos os vazios desta vida. Hoje vai valer-me a garrafa de Ballantines. Vazio por vazio...

Orlando Castro

CÁ FICO disse...

Amália, Eusébio e Ouro Negro, representam um pouco da alma Lusiada de vocação universalista ou universal.. são atrilogia evidente do luso tropicalismo...

Raul que parte, deixa o cheiro do café numa chicara vazia...

Olho Atento disse...

Se Deus os tinha juntado na terra para fazer música agradável para homens, então, tomara que os tenha juntado de novo para cantar pra anjos nos Céus.

Paz à sua alma.

Ó disse...

Aproveitando para divulgar o blog de um grande admirador deste Duo:

http://duoouronegro.blogspot.com/

Tentando fazer a justa homenagem.