24 novembro 2008

O Pululu pelos leitores: “Obama…”

(a partir de uma imagem no Google)

Sempre que se proporcionar e o conteúdo for merecedor disso terei todo o prazer em trazer à estampa os comentários dos leitores. Não o tenho feito, porque quem quer, pode sempre aceder aos mesmos na rubrica comentários.
(Re)comecemos hoje com um sobre o
artigo publicado no semanário santomense Correio da Semana sobre Obama e alertado aqui.
Mas porque o que segue é, não só interessante como tem observações pertinentes, como quando se refere à pouca visibilidade de – adoptemos a sua terminologia que adoptou para americanos e brasileiros – afro-portugueses na vida política portuguesa. Que me recorde só dois afro-portugueses tiveram rosto na Casa dos Portugueses, ou seja, na Assembleia da República: Fernando Ká, pelo PS, e de ascendência guineense, e Hélder Amaral, do CDS. Há, apesar de não ser de ascendência africana, uma outra personalidade não-branca com posição de destaque, Presidente de uma das principais câmaras portuguesas e que já chegou a ser hipótese para liderar o seu partido. Mas…
Lamentavelmente, e é só o que lamento, o artigo foi colocado como anónimo. Nem umas iniciais. Pelo conteúdo fico com a ideia que é um angolano, um compatriota. Todavia, agradecia que, de futuro, as pessoas assinassem, pelo menos, com as suas iniciais. Há que deixar o medo para os ditadores e autocratas.
Aqui fica o texto:

Amabilíssimo Pululu,
Gosto muito do seu blog e deleito-me durante longos fios do pouco tempo livre que tenho tido a ler boas e imparciais análises contidas nos seus artigos. Quanto ao presente artigo, tenho simplesmente a incentivar-lhe a encontrar - mesmo que isso venha a exigir da sua parte ter um coração negro - as motivações que estiveram e estão ainda, infelizmente, na origem de um sentimento de revolta e que agora se transforma quase em "exclusão", embora eu nem sequer partilhe desse sentimento de vítima, dado que até em Angola, p.ex.,os brancos e mulatos - que não constituem 14% como os negros nos EUA - ocuparam e ocupam sempre bons e até melhores lugares e se eu disser que em muitos casos, são eles a excluírem a maioria negra e eles próprios a autoafirmarem-se mulatos e não negros e, no caso de brancos, angolanos só quando isso convém, sei que não me vai acreditar ( E então eu devia ter mais motivos de escrever as minhas lamúrias...). A única coisa que vai acreditar é que o branco nunca foi escravo do negro e nunca se submeteu aos desprezos mais humilhantes à custa da cor da sua pele; e acho que confirma também esta: o negro nunca se considerou superior ao branco, mas sempre lutou e teve que lutar, por si próprio, pela dignidade e igualdade. A essa luta juntaram-se mais tarde outros não-negros de quem os negros nunca se vão esquecer, porque a eles rendem homenagem. E existem muitos ainda hoje, e sobretudo hoje, na mesma senda. Creio que sua senhoria também está do lado dessa luta, embora neste artigo revele mais o interesse de promover quem sempre se auto-promoveu e nunca foi despromovido por ninguém, aproveitando-se do "caso Obama" que é simplesmente uma vitória do Povo maduro americano maioritariamente branco que foi acompanhando essa luta sem armas.
E nem penso que este seja o fim da luta; é o princípio...! Obama terá de usar as suas competências não só para lutar contra a corrente dos preconceitos, mas também e sobretudo para defender a cor. Tudo o que vier a correr mal durante a sua governação já náo terá como causa o Presidente americano Obama, mas o Presidente afro-americano (negro) Obama. É mesmo assim, enquanto uns são americanos, brasileiros, outros são afro-americanos, afro-brasileiros.
Contra a minha vontade tive de recordar-lhe só alguns de muitos factos a que devemos estar atentos quando pretendemos que acontecimentos dos EUA sirvam de exemplo para Angola, Moçambique, etc. Sigamos a história, curemos as feridas do passado com muito respeito, tolerância, serenidade, mas sobretudo com espírito de perdão( e nós que apenas obtivemos a independência em 1975 e com uma guerra civil que só terminou há 6 anos, ainda estamos nessa fase). Ainda temos um longo caminho a percorrer: em Angola (onde já desde o ano da independência existem mulatos e brancos em cargos públicos importantes, incluindo governadores provinciais porque foram vistos simplesmente como angolanos e o são!) , em Portugal (se calhar também ai existem negros portugueses - quem são eles na política ou noutros sectores importantes?), no Brasil, em Moçambique, na França, na Holanda, na Bélgica, na Zâmbia, no Zimbabwe, na Inglaterra, na Itália, na África do Sul(também aí, apesar de os negros ainda terem as cicatrizes do apartheid bem visíveis, não me parece que os brancos estejam a ser vítimas de exclusão nem política nem social) , na China...
Andemos devagar, invistamos nas nossas fazendas sim mas também nos valores humanos, respeitemos o povo e a sua cultura viva, nos ocupemos dele, lutemos pelo seu bem-estar, apresentemos as nossas propostas inteligentemente, que a nossa política convença o eleitor (como o fez Obama), façamos jogo democrático limpo, na harmonia e na paz, e então poderemos ( “we’ll be able”, futuro do presente “we can” de Barack Obama) chegar ao poder sem condescendência de ninguém nem precisaremos de usurpá-lo de ninguém, mas por mérito próprio e reconhecimento do povo!

5 comentários:

Anónimo disse...

Queira me desculpar por não ter deixado a minha identificação!
O que aconteceu é que eu queria identificar-me com o meu blog que apenas está em construção e não obtive sucesso nas várias tentativas que fiz de enviar o comentário. E como tinha muita pressa, preferi enviá-lo optando pela terceira via.
Por enquanto, gostaria apenas de dizer que respondo pelo pseudónimo(mas conhecido por muitos) de
Ndjoyi( nome familiar que em Umbundu significa “sonho”). Sou angolano sim, tenho 35 anos, vivo na Itália há dois anos por motivos ligados ao meu trabalho, ao mesmo tempo que faço algumas investigações científicas no ramo psico-pedagogico( e também sociológico), e volto para Angola dentro de poucos anos.
Obrigado pelo reparo, mas sobretudo pela cortesia que teve de publicar o meu comentário.
Um abraço!

ELCAlmeida disse...

Caro Ndjoyi, face ao que já foi escrito fico a aguardar pelo seu blogue.
tenho a certeza, e os leitores, que será uma achega à blogosfera angolana.
Abraços
Eugénio Almeida

João Craveirinha disse...

----- Mensagem encaminhada ----
22 Nov 2008 12:53:06 +0000

E se Obama fosse europeu?*

Por Luzia Moniz

É comum ouvir-se dizer, sobretudo na Europa, que devíamos todos votar nas eleições americanas, particularmente nas presidenciais. Tal é a influência que as decisões políticas da maior economia do mundo têm sobre o resto do mundo que gostaríamos de também contribuir para a eleição do líder dos EUA.



Quando da campanha eleitoral para as presidenciais de 4 de Novembro, realizaram-se hipotéticas sondagens, em vários países europeus para saber, em quem votariam os europeus, se tivessem esse direito. Na maioria desses países, Barack Obama esmagava o seu rival John McCain, numa diferença que daria ao candidato democrata uma maioria qualificada.



As razões do apoio dos europeus a Obama serão certamente diferentes dos motivos que levaram os americanos a escolher, pela primeira vez, na sua curta História, um negro para dirigir os seus destinos.



Com tanto apoio manifestado pelos europeus, é legítimo questionar: e se Obama fosse europeu? Teria o mesmo apoio que lhe daria a vitória?

E se Obama tivesse nascido em Londres, Paris ou Lisboa, filho de um imigrante africano negro e de uma europeia branca? Teria conseguido reunir a sua volta apoios europeus da esquerda à direita?

Não será que o filho de um queniano entusiasma a Europa, porque está fora das suas portas?



A eleição de Obama não foi um milagre, nem obra do acaso. Surge como o corolário de uma REVOLUÇÃO pacífica, mas não silenciosa, com dor, desencadeada pelos próprios americanos, que teve o seu grito de Ipiranga em Martin Luther King e Malcom X, que fizeram da luta contra o apartheid americano, pelos direitos dos negros, o seu cavalo de batalha.



Ainda na década de 60 do século XX, um negro americano que estivesse sentado num autocarro público, tinha que se levantar para dar lugar ao branco que entrasse. Até a adopção do "Voting Rights Act", em 1965, os negros tinham o seu direito ao voto indexado ao pagamento de um imposto e a um teste de literacia, apesar de teoricamente serem considerados cidadãos de pleno direito, desde 1868.



A América percebeu que não podia acabar com o racismo, apenas inserindo na Constituição um artigo dizendo que as pessoas são todas iguais, independentemente da sua raça, …, e que para se tornar numa grande nação tinha que estar na linha da frente do combate pela igualdade de oportunidade, por isso fez da educação, do ensino o principal aliado da referida Revolução, a par de leis de discriminação positiva a favor dos negros.



Isso permitiu a afirmação e visibilidade de uma elite negra em todas as esferas da sociedade. Das artes ao espectáculo, da comunicação social à política, passando pelo desporto. E hoje mostra ao mundo que figuras como os actores negros Morgan Freeman, Denzel Washington, Whoopi Goldberg ou Eddie Murphy, ou as manas tenistas Williams são o exemplo da América intra-racial que se pretende.



A América moderna, com 13 por cento de negros entre os seus mais de 300 milhões de habitantes, olha com naturalidade que a Senhora TV - Oprah Winfrey -, um fenómeno de audiência mundial, em toda a História da televisão, seja uma negra.



A mesma naturalidade com que encarou o facto de serem negras duas das principais figuras da Administração Americana, no primeiro Governo de Bush filho – Collin Powell, nas relações externas e Condoleeza Rice na segurança nacional. Ou que a pasta de secretário de Estado da Administração Bush estivesse em oito anos sempre ocupada por negros, primeiro Powell, depois Rice.



Analisando os eleitores de Obama por idade, encontramos que o democrata vence de forma esmagadora entre os que votaram pela primeira vez. Na faixa entre os 18 e 29 anos atinge quase 70 por cento. Entre os novos eleitores americanos, apenas um em cada cinco é negro.



O republicano John MacCain só bate Obama no eleitorado com mais de 64 anos, numa diferença de dez pontos percentuais (55% - 45%). Entre os eleitores do segmento etário 30 - 44, a diferença entre os dois concorrentes à Casa Branca é de mais de 10 pontos (56%-44%) enquanto que no escalão 45 - 64 há quase um empate, a diferença não passa os dois pontos (51% -49%)



Com estes dados e olhando para a América de hoje, ressalta a vista que se, por um lado, a nova geração, aqueles que governarão a América amanhã, aposta claramente em Obama, por outro é no eleitorado que representa o passado, mais conservador, que Obama encontra mais oposição.



Constata-se que o eleitorado de Obama é essencialmente jovem e a medida que a idade vai avançado, o democrata vai tendo mais dificuldades eleitorais.

O facto de Obama ter menos 25 anos que McCain, e o eleitor gostar de se rever no seu candidato, não explica tudo, nem grande parte da mudança histórica ocorrida na América.



Quem tem entre 18 e 29 anos não viveu a América da segregação racial, e, nalguns casos, os seus pais também não. O eleitor deste segmento fez ou está a fazer toda a sua formação académica no sistema integrado de educação que existe na América, onde as diferentes raças são retratadas da mesma forma.



Um qualquer manual escolar infantil americano, se tem numa página uma criança branca com um microscópio, retrata a seguir uma criança negra com um telescópio e depois uma criança de traços asiáticos a fazer medições.



Até os br4inquedos, jogos didácticos utilizados nos jardins-de-infância têm que exprimir essa sociedade multi e intra racial que a América está apostada em ser, onde a preocupação não é a integração de uns em outros, mas a afirmação de todos.



Os jovens até 29 anos aprenderam desde cedo, que a América é o país das oportunidades e que o objectivo da discriminação positiva é evitar a discriminação propriamente dita.



Quem tem mais de 64 anos viveu um grande período da sua vida no tempo da segregação racial. A sua formação e socialização foram feitas total ou parcialmente nesse período. Apesar de ter testemunhado as mudanças operadas no papel do negro na sociedade americana, isso não foi suficiente para alterar alguns preconceitos inculcados desde tenra idade, muitos dos quais pela própria escola.



Apesar de ainda prevalecerem guetos de negros, da pobreza, da criminalidade, das tensões raciais, quando um americano branco, pergunta ao seu conterrâneo negro de onde é, a resposta que espera ouvir é: Massachusetts, Washington DC, Virgínia, etc., mas no caso de um europeu branco fazer a mesma pergunta a um europeu negro espera como resposta Nigéria, Senegal, Angola. etc..



Enquanto os negros da América são afro-americanos, os da Europa são africanos, mesmo que tenham nascido na Europa, filhos de pais também nascidos na Europa.



Alguém acredita que este Obama com a sua mulher Michelle e as suas duas filhas, todos negros, seriam inquilinos da Downing Street, Eliseu ou Palácio de Belém? Claro, que não.

O poder político na Europa funciona como uma casta, onde quem lá está não sai e quem quer entrar vê as portas fechadas a cadeados. Não são admitidos outsider, como os negros europeus.



Os europeus que são dos principais críticos do racismo da América, e que fazem o discurso politicamente correcto contra as formas de discriminação racial, não conseguem ir tão longe como a América.



Tal discurso da igualdade entre os homens, aliado às políticas europeias de integração, acabam por funcionar como perpetuador da ficção de uma sociedade sem minorias, empurrando-as para fora da realidade.



Por exemplo, em França, país que se gaba de ser o berço dos direitos humanos e um baluarte contra o racismo, e em que os políticos gostam de dizer que "os negros são um problema social e não racial", não há praticamente negros no mundo empresarial. Os negros também quase não têm representação política.



O censo francês, tal como o português, não classifica as pessoas por raças. Estima-se que haja em França cerca de 1,5 milhão de negros, numa população de 59 milhões. Outras estimativas, afirmam que o número de negros é muito superior ao referido.

Em Portugal, numa população de dez milhões de habitantes, as estimativas apontam para a existência de 700 mil a um milhão de negros, ou seja entre 7 a 10 por cento, mas não é perceptível a sua representatividade nos centros de decisão política ou no mundo dos negócios.



As crianças do jardim-de-infância e da primária em Portugal, continuam a aprender que existe uma cor (um rosa baço) que se chama cor da pele, como se existisse apenas um tipo de pele. É nesta Europa em que não há medidas de discriminação positiva que a visibilidade dos negros nos mídia é quase nula. Sendo a comunicação social, o quarto poder, ou o quarto do poder – onde o poder se veste e se despe, como gosta de lembrar o poeta Mawanda –, não sendo visível nos mídia, dificilmente a elite negra poderá alcançar altos voos.



O combate a esse racismo matizado torna-se mais difícil, quando o Chefe de Estado diz ao mundo (à comunicação social) que está a "celebrar o dia da Raça" (no Dia Nacional) e nada acontece. Não se levanta um coro de indignação da classe política, excepto raríssimas vozes isoladas, nem o próprio autor vem a terreiro retratar-se publicamente, dizendo, pelo menos, que foi um lapso de linguagem. Freud explica os lapsos de linguagem. Talvez no sub-consciente da elite política europeia perpasse ainda o preconceito de que europeu é sinónimo de branco.



Para que surjam Obamas na Europa há ainda um longo caminho a percorrer, que deve começar pelo reconhecimento de jure e de facto de que os europeus não são todos da mesma cor e percorrendo a trajectória

de defesa das minorias e sua valorização.



Este Obama (Barack Hussein) que por não ser suficientemente negro não seria eleito em África, continente que ainda tem no colonizador o seu modelo, não é eleito na Europa, por ser demasiado negro. Este Obama foi eleito pela América não por ser negro, mas por representar a esperança, o futuro.

(Artigo publicado no Semanário Angolense de 22/11/08)

*Título adaptado do artigo de Mia Couto: "E se Obama fosse africano?"

JC disse...

----- Mensagem encaminhada ----
22 Nov 2008 12:53:06 +0000

E se Obama fosse europeu* 2

Por Luzia Moniz

É comum ouvir-se dizer, sobretudo na Europa, que devíamos todos votar...

http://br.groups.yahoo.com/group/mocambiqueonline/message/11190

...................................


Achega:

* Luzia Moniz é Socióloga e Jornalista angolana em Portugal.



E é uma das mais brilhantes escribas africanas (baNto) da chamada lusofonia. Mulher alfa africana de lucidez pós-moderna em qualquer parte do mundo. Aliás, como se pode consubstanciar na abordagem inédita do tema sem tentar reduzir o fenómeno "furacão" Barack OBAMA, a um aspecto exótico, étnico, e de consumo de um modismo paternalista europeu pós-colonial.



E no caso português e afins de facto tem sobressaído uma irritação de um não disfarçado mal-estar pela vitória deste jovem e brilhante advogado negro norte-americano, Presidente eleito Barack OBAMA. A jornalista e socióloga, Luzia Moniz, colocou "todos os dedos nas feridas" dos cinismos da dita lusofonia e do europeísmo em relação a esta vitória que no olhar do dito branco ao "THE OTHER" nada vai ser mais igual como antes.



Terão de erguer mais a cabeça quando falarem com os negros e tomar bem atenção o que eles têm para dizer, sem desdizerem antecipadamente por soberba, antes de ouvirem bem até ao fim, despidos dos preconceitos de séculos da chamada saga dos descobrimentos (para os europeus). Apesar de ao chegarem a África terem encontrado habitantes.



Agora quererem rebaixar a dimensão desta vitória histórica de OBAMA à escala mundial, a uma ridícula (?!) comparação com uma África enferma sem contextualizar um processo histórico, deixo a resposta para o Patrício LANGA na sua modéstia exagerada, sem necessidade, visto ter-nos dado uma genuína aula de sapiência de fazer sorrir embevecido um John Locke ou melhor a um filósofo e cientista sócio-histórico, NNamdi Azikiwe.



Precisamos em Moçambique de mais Patrícios Langas e de Patrícias (do gender). Mais massa crítica pensante e não somente fofocas (gossips) em artigos na imprensa moçambicana (!?) e escritos em bom português moçambicano (PM) mesmo com (des)acordos ortográficos "impostos".



Ainda sobre a vitória do advogado Obama, por outro lado e paradoxalmente em Moçambique, surgiram atitudes "reáccias", bem típicas à portuguesa de escárnio e mal-dizer e racistas, coadjuvadas pelos seus habituais acólitos (outros alcoólicos) moçambicanos da churrasqueira e de grupinhos maputenses pseudo elitistas intelectuais de Jazz – Cafés e Pubs (de quadrados de Marracuene resíduais), enviando semi-anónimas circulares e cartoons racistas, anti-Obama pela net, como se estivéssemos nos tempos da santa aliança de Portugal colonial com o apartheid da Rodésia de Smith e da África do Sul de Voster em que o moto era "juntos venceremos" com as 3 bandeiras unidas (1967).



Aliás em Portugal, quase em histeria colectiva subterrânea, esse tipo de racismo anti-Obama e anti-blacks em geral argumentando também que Obama não é bem negro et cetera e tal, tem-se espalhado em forwards. É o fantasma do síndrome colonial português de dividir para reinar a funcionar entre os distraídos.



Quem está de parabéns é a angolana Luzia Moniz com este artigo e já agora também o moçambicano Patrício Langa com outro artigo anterior (penso) no notícias de Maputo, Quarta-Feira, 19 de Novembro de 2008: IDEIAS - E se África fosse os Estados Unidos de Obama?

http://www.jornalnoticias.co.mz/pls/notimz2/getxml/pt/topoption/61/20081119



E não é por acaso: são ambos sociólogos da nova geração da futura e real lusofonia sem "bayetes" laudatórios ao antigo "patarao" – num desejável relacionamento de igual para igual sem presunções de superioridade intelectual porque esta "nossa" língua portuguesa mesmo oriunda de PortuGaliza na história, também é nossa agora, com as suas variantes linguísticas lexicais e diatópicas.



Lusofonia é partilha e não neo-colonialismo cultural pelo pretexto do idioma! (Sem dúvida a quem servir a carapuça reagirá em conformidade, aqui, como o esperado e habitual. No entanto, a caravana continuará a passar. Aí sim é "defeito" de família). Siá Vuma. Náme! Ndzikomo kwa bili! Na oscuro! Kani Mambo!



Tsala buino!



Era só isto.



João Craveirinha



(texto sem revisão)

JC disse...

jornal diário notícias

Réplica em Moçambique a Mia Couto por PATRÍCIO LANGA - Sociólogo

notícias

Director: Rogério Sitoe. Maputo, Quarta-Feira, 19 de Novembro de 2008

Director: Rogério Sitoe. Maputo, Quarta-Feira, 19 de Novembro de 2008

IDEIAS - E se África fosse os Estados Unidos de Obama?
A opinião de Mia Couto, sobre qualquer assunto, não é qualquer opinião. É uma opinião consagrada. É consagrada por dimanação duma autoridade merecida como, pelo menos para mim, um dos maiores escritores africanos. É, portanto, uma opinião respeitada mesmo antes de se lhe extrair a primeira crítica. Essa condição da opinião de Mia torna qualquer outro opinante, principalmente um ilustre desconhecido como eu, suspeito nas suas intenções ao interpelar Mia. Falo por experiência própria.

Maputo, Quarta-Feira, 19 de Novembro de 2008:: Notícias



A primeira vez que o interpelei foi em 2005 com um texto intitulado "Os alienados do Mia". Nesse texto divergia sobre algumas concepções, de identidade de "raiz", apresentadas pelo nosso romancista-mor. Os acólitos incondicionais de Mia caíram-me por cima. Disseram-me que Mia nunca podia estar enganado no seu raciocínio. Perguntaram-me quem eu era para questionar Mia. Afinal, Mia é Mia. Foi o próprio Mia, na sua humildade característica e honestidade intelectual, que saiu publicamente em minha defesa distanciando-se dos acólitos incondicionais. Fê-lo numa edição do "Savana" que infelizmente nunca pude ler, mas não me faltaram repórteres. Aí, também, reside a grandeza de Mia. Do seu altar, mais do que merecido de consagrado escritor, se mostra de espírito aberto ao debate crítico das suas próprias ideias, da sua opinião, aceitando a diferença de pensamento. Existe algum indicador da grandeza de um intelectual acima desta atitude? Acho que não. Mia aí também é um exemplo a seguir. É, portanto, com a mesma abertura de espírito para o debate crítico de ideias que volto a interpelar Mia.

Num texto muito bem escrito, como não podia deixar de ser, vindo de quem vem, publicado na edição de 14 de Novembro de 2008 do semanário "Savana", Mia faz uma reflexão em torno da seguinte questão: "E se Obama fosse africano?" Como se pode depreender pelo título trata-se de uma asserção condicional interrogativa. Obama não é africano. Ainda que exista a possibilidade de que o seja por adopção de nacionalidade em qualquer um dos países africanos cuja lei o permita. A pergunta de Mia é portanto uma pergunta retórica. É uma pergunta para introduzir um raciocínio analógico. A analogia consiste na comparação das possibilidades que Obama teria de ser eleito Presidente, como o foi nos Estados Unidos, caso fosse candidato em um dos países africanos. É neste aspecto da análise de Mia, a comparação dessa possibilidade, que pretendo discordar do nosso escritor.

Permitam-me resumir o argumento de Mia para que me possam acompanhar e talvez perceber o meu ponto de discórdia com a comparação que nos é proposta na análise. Espero que o faça com justiça. A ideia central do texto de Mia é de que se Obama fosse candidato as eleições num dos países africanos não teria as possibilidades que o permitiram tornar-se Presidente eleito dos Estados Unidos no dia 4 de Novembro de 2008. As premissas que sustentam esta conclusão, ainda que hipotética e condicional, são retiradas de uma série de exemplos que pretendem demonstrar, com raras excepções, todo tipo de entraves que impenderiam o sucesso de um Obama africano. Pois bem, são precisamente essas condições que fazem da África, África e dos Estados Unidos, Estados Unidos. No entanto, essas condições não se auto explicam. São precisamente as condições que precisam ser explicadas. Sei que ainda não fui suficientemente claro.

Mia está a comprar as condições de possibilidade de eleição de um candidato com o perfil de Obama nos Estados Unidos, um país, com África. Na verdade aqui também devia ser com os países africanos individualmente. Ian Khama, filho do primeiro Presidente do Botswana, Seretse Khama, têm as mesmas características fenótipicas de Obama, e é Presidente daquele país. Bom, dir-me-ão que Botswana é a suíça africana, a excepção. Não preciso falar sequer de Fradique de Meneses em São Tomé e Príncipe.

A comparação de Mia assenta na ideia de que o que foi possível nos EUA não seria possível em muitos países africanos. Não seria possível em muitos países africanos por, fundamentalmente, seis razões: 1) os equivalentes de George Bush em África mudariam a constituição para se perpetuarem no poder, impedindo assim a possibilidade de qualquer Obama. Mia, perfila exemplos como o Gabão de Omar Bongo, A Líbia de Muammar Khadafi, o Zimbabwe de Robert Mugabe, Angola de José Eduardo dos Santos, para citar alguns Presidentes há mais de 20 anos no poder. 2) Os equivalentes do partido democrata de Obama, na oposição, em África não teriam espaço para fazer campanha e expor seu programa alternativo de governação. O Zimbabwe surge como o exemplo paradigmático 3) Em África as elites no poder imporiam leis restritivas a candidatura de cidadãos considerados não originários, ao contrário dos EUA onde bastaria ter nascido em solo das terras do tio SAM. Desta vez o exemplo vem da Zâmbia onde o primeiro Presidente, Kenneth Kaunda, se viu impedido de fazer política por lhe terem identificado origem malawiana. 4) A cor da pele de Obama também seria motivo de impedimento da sua candidatura em África, mas uma vez por culpa das elites que usariam do mesmo argumento da autenticidade para o impedir de se candidatar. 5) A questão moral da homossexualidade, para qual Obama tomou uma posição liberal, seria também um entrave à sua candidatura africana. 6) Finalmente, na eventualidade do Obama africano ganhar as eleições, caso fosse deixado concorrer com todos os inconvenientes até aqui apresentados, se mesmo assim concorresse e ganhasse depois teria que se sentar à mesa de negociações para discutir um GUN (Governo de Unidade Nacional) para partilha do poder com os derrotados. Não me vou referir aqui as excepções apresentadas por Mia. Os seis pontos fazem a regra do campo político em África na visão de Mia.

É precisamente aí onde a "porca torce o rabo". Podemos comparar o campo político africano (eu preferia dizer de países africanos), que tornaria impossível um Obama, com aquele dos Estados Unidos, que possibilita Obamas? Mia fê-lo, então, é possível. Mas os termos de comparação são os mais adequados? Aí começam as surgir as minhas dúvidas. Antes porém, deixem-me dizer, claramente, que Mia está certo na descrição fenomenológica que faz do campo e do jogo político africano. Todos aqueles exemplos que inviabilizariam a candidatura, com sucesso, do Obama africano não são mera fantasia. O processo político africano é actualmente marcado por essas vicissitudes.

O que o argumento de Mia não nos permite entender é o por quê de as coisas serem assim. Na verdade Mia até nos dá uma dica, nomeadamente a de que estamos reféns da manipulação de políticos e elites políticas "corruptas, desmesuradamente ambiciosas, gananciosas", eu acrescentaria, que tiram partido da desordem criada intencional e instrumentalmente. São estas elites que minam todo um contexto institucional que propiciaria a possibilidade de Obamas africanos, na óptica de Mia. Será? Esta é uma análise útil para percebermos, por exemplo, como são possíveis esses políticos ou essas elites políticas? O que torna possível os Mugabes? O que as torna possíveis em África e impossíveis nos EUA? São mesmo impossíveis nos EUA? Se Bush tivesse possibilidade de ser Mugabe e se perpetuar no poder nos EUA não o faria? O que faz Bush, na altura de ceder o poder, ser diferente de Mugabe? Alguns apressadamente dir-me-ão que a democracia americana funciona. Sim, aceito. Mas o que a faz funcionar? E o que faz a africana não funcionar? Oh, os políticos e as elites políticas africanas! É redundante.

São estas repostas que a analogia, apressada, de Mia não nos permitem ultrapassar. A analogia varre para baixo do tapete as condições estruturadas, estruturais e estruturantes da acção dos políticos e das instituições democráticas que se desenvolveram historicamente nos EUA para permitir que hoje Obama seja possível. Alexis de Tocqueville, um pensador político e historiador francês do século XIX, foi um dos que tentou dar conta dessas condições estruturais. Em dois volumes tentou perceber como é possível a democracia na América. Porque é que aquelas coisas que parecem dar errado noutros contextos, são possíveis na América? A eleição de Obama podia ser uma dessas excepções da democracia na América. Tocqueville, nas suas análises conclui que as democracias têm tendência de degenerarem em "despotismos moderados" ou na "tirania da maioria". O que impedia isso de ocorrer nos EUA era a influência forte da religião. A religião protestante nos EUA influenciou a maneira como se faz política pela sua separação do poder governamental, o que todos os partidos políticos acordaram. Essa relação de separação do Estado com a religião concorreu para uma cultura política distinta da que por exemplo se vivia em França. Enfim, este é apenas um exemplo de uma explicação a partir das condições estruturais e estruturantes neste caso da relação entre política e religião. O mesmo raciocínio seria válido para pensar a impossibilidade de um Obama africano.

Essas condições histórico-sociológicas foram negligenciadas no argumento de Mia e fazem da sua analogia um exercício problemático. Mia está assim a comparar alhos com bugalhos. Quer dizer, para que a analogia de Mia fosse logicamente válida teria de haver equivalência entre os termos do que se está a comparar num aspecto relevante dessa comparação. As analogias têm uma forma de enunciação própria que segue o modelo: (A) está para (B) assim como (C) está para (D). Referem-se a semelhança entre duas coisas, mas não a sua igualdade. Os EUA não precisariam ser iguais a África, e nem teriam como. No entanto, as condições que estruturam o campo político e condicionam a acção dos políticos é fundamental para a comparação que Mia pretendeu fazer. Uma analogia não é valida se o que estiver a ser comparado não for semelhante nalgum aspecto relevante.

No caso do texto de Mia que aspecto relevante torna a comparação válida? As elites políticas? Os políticos? África? As leis? A democracia? Podemos admitir que essas são entidades que existem em ambos os casos. Mas, o mais importante do ponto de vista analítico seria perceber como se produziram, como se estruturam e como condicionam a acção dos actores sociais envolvidos nesses espaços políticos. Existe alguma diferença fundamental entre o político africano e o americano? Se existe, em que consiste essa diferença? Quanto a mim, essa diferença, se existe, reside no contexto institucional em que eles actuam, não na sua condição "genética" de político africano. Mia parece essencialisar o comportamento dos políticos e das "elites políticas africanas". E ao fazê-lo deshistoricisa o comportamento dos políticos naturalizando-os. É como se o político africano fosse por natureza ditador, corrupto, ganancioso e por aí em diante e o americano o inverso. E mais, há um aspecto interessante e até contraditório no argumento. Ao mesmo tempo que eles são assim, com raras excepções, também se tornam assim quando deixam de fazer parte do povo.

O povo africano, para Mia, é imaculado. Apenas aqueles poucos que ascendem cargos políticos é que sofrem uma mutação genética no poder. De novo a questão seria porque? Mas aí já estaríamos a entrar num círculo vicioso, pois a resposta seria são corruptos porque têm o poder e têm o poder porque são corruptos. Enfim, Mia está na verdade a comparar mais de 200 anos de constituição de instituições democráticas com duas décadas. A ideia de elites predadoras também precisa de alguma ponderação. Esse é um defeito de raciocínio que, infelizmente, está generalizado inclusive entre académicos de grande craveira. Quem lê o livro, bastante aplaudido no Ocidente, de Patrick Chabal e Jean Pascal Daloz, "Africa Works: Disorder as a political Instrument", vai encontrar o lado académico desse mesmo argumento. No mesmo dia da vitória de Obama, diz Mia no seu texto, "África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmensurada de políticos gananciosos (onde é que não os há?). "Depois de terem morto a democracia estão matando a política, resta a guerra em alguns casos". "Outros, a desistência e o cinismo". Estes exemplos de Mia fazem a base empírica do argumento de Chabal e Daloz. Perguntem aos americanos quantas guerras antecederam a sua democracia secular, quantas pilhagens houve até desenvolverem instituições credíveis (e mesmo assim caíram na maior crise corrupta do sistema bancário); quantos políticos desonestos se descobrem hoje na terra do tio SAM; quantos corruptos são denunciados e tantos outros escapam; perguntem aos americanos como se lida com os lobbyistas. Aí veremos que o problema não reside apenas na condição genética de político africano. Não estou a sugerir com isto que a África tenha que passar pela mesma trilha. Estou simplesmente a sugerir que África devia ser analisada por seus próprios termos. Não existe nenhuma possibilidade de se pensar num Obama africano, assim como é absurdo pensar-se, ainda que se faça, numa África que são os EUA.

PATRÍCIO LANGA - Sociólogo


http://www.jornalnoticias.co.mz/pls/notimz2/getxml/pt/topoption/61/20081119



Réplica em Moçambique a Mia Couto por PATRÍCIO LANGA - Sociólogo


Nota: Faltou lembrar-se de Jerry John Rawlings de Gana que foi Presidente da República duas vezes e filho de pai branco escocês e de mãe negra e nem por isso deixou de ser eleito e de se considerar negro africano.



"Jerry John Rawlings was born in Accra on 22nd June, 1947, to a Ghanaian mother from Dzelukope, near Keta, in the Volta Region, and a Scottish father."

http://www.ghanaweb.com/GhanaHomePage/people/person.php?ID=166



http://www.jjrawlings.info/



http://news.bbc.co.uk/1/hi/world/africa/1050310.stm



http://encarta.msn.com/encyclopedia_761584105/rawlings_jerry_john.html