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17 setembro 2012

Dia do Herói ou dos Heróis Nacionais?


Há muitos anos que se comemora, neste dia, e homenageando o poeta António Agostinho Neto, o Dia do Herói Nacional.

Não se contesta – eu pelo menos não o contesto – que se aproveite a data, até porque foi a primeira, para celebrar os heróis angolanos. E digo heróis porque houveram, continuam a haver e, felizmente, persistirão no futuro muitos heróis nacionais.

E porque não estamos a ver criar um dia, um feriado – até porque, a nível mundial e a nível económico há tendências para reduzir os números de feriados nacionais – para cada um dos nossos heróis, é altura, sem prescindir desta data, alterar o dia para o Dia dos Heróis Nacionais.

Este dia, esta data, esta celebração foi criada para, segundo fins políticos, cimentar a unidade nacional usando o nome de uma personalidade que era respeitada por uma larga faixa populacional do país.

É altura de deixarmos as bases políticas que fizeram emergir a data e torna-la uma comemoração universal.

Caberá ao novo governo e à nova Assembleia Nacional fazer essa alteração. Tenho a certeza que será acolhida por todas as bancadas políticas. É que primeiro que o político, está o poeta e o médico que dá nome à celebração.

E isso é o que deve contar!

Transcrito no Página Global (http://paginaglobal.blogspot.pt/2012/09/angola-dia-do-heroi-ou-dos-herois.html?spref=tw)

30 setembro 2008

Dia da Quitandeira

(O Pregão da vendedora de milho; Tela de Tóia Neuparth)

Angola celebra hoje o Dia da Quitandeira.

Quantas ocasiões não foram elas, muitas vezes trôpegas e com enormes e pesadas kitandas à cabeça, que nos saciaram a fome e a sede com as suas frutas frescas e perfumadas recolhidas na penumbra do matinal cacimbo.

Quantas vezes suculentos abacaxis, maravilhosas espigas de milho, lindas laranjas, perfumadas pitangas, belas papaias, magníficas bananas, ou deliciosas mangas ou goiabas nos caíram nas nossas mãos ávidas da frescura que elas nos transmitiam esquecendo-nos das longas caminhadas já percorridas pelas, por certo, cansadas quitandeiras.

Associando-me a esta data relembro parte do poema de Luandino Vieira “Canção para Luanda”: E você / mana Maria quintandeira / vendendo maboques / os seios-maboque / gritando, saltando / os pés percorrendo / caminhos vermelhos / de todos os dias? / "maboque, m'boquinha boa / doce docinha; ou, então, propondo-vos uma leitura no Malambas do poema de Agostinho Neto “Quitandeira” ou "Névoas" de Namibiano Ferreira.

05 junho 2008

Os poetas são como os gatos

Mais uma interessante análise de João Craveirinha sobre a problemática racismo versus xenofobismo, ainda não publicada na imprensa.

"Notas adicionais sobre XENON:

Xenofobia não tem cor mas o racismo tem cor. Não confundir os dois - pois acabam por se diluir se assim for feito.

Ambos são violentos mas o racismo é duplamente violento. No imaginário de séculos e na acção colonizadora do Eu do outro, considerado inferior em África - (NESTE CASO O DENONIMADO NEGRO / BLACK / NOIR / SCHWARZE / T'CHORNI etc etera).

A xenofobia é anti-estrangeiro mesmo sendo da mesma “cor” epidérmica.
O racismo tem cor diferente e é de cima para baixo vindo da superioridade europeia (leia-se do que se diz branco).

Não confundir dos que reagem (mais morenos ou negros ou castanhos) ao se sentirem espezinhados há séculos em tudo que fosse a sua cultura a começar pela língua que passou a ser desvalorizada para dialecto. Indicando que não sofrera evolução como raça humana ao longo de milhares de anos.
(Paradoxalmente apesar dessa raça humana global ter saído de África, Etiópia) numa evolução de cerca de 4 milhões de anos (Lucy)...

... e da transição do dito negro (negróide) para o dito branco (europóide ou caucasiano) numa mudança genética (mimetismo) de cerca de 20 mil anos de África para a Europa via Índia e pelo Cáucaso (entre o mar Negro e o Cáspio – o maior mar interior do mundo. Fronteira do Irão e da antiga União Soviética).

Em 20 mil anos um negro (sem mistura e dependendo do clima) fica branco e muito menos um branco fica negro com a mestiçagem em sentido inverso. Bastam 4 gerações. Avô, Pai, Neto, Bisneto.

Jean-Paul Sartre, dizia a Negritude ser uma forma de “racismo anti-racismo” e a única encontrada pelo negro para se afirmar contra a negação de seu Eu pelo branco.

Foi assim que surgiu a corrente literária da Negritude que nada tem a ver com um pseudo-racismo negro mas sim com o recuperar da dignidade perdida de ser humano, "assumindo" o intelectual negro (ou mestiço) os epítetos derrogatórios (negro, cafre, narro et cetera) de sua condição imposta de infra-humano, numa assumpção irónica dessa negação para desfazer o que lhe impõem de cima para baixo fazendo-lhe crer que era inferior ao que ele recusa:

NEGRO :
SER OU NÃO SER
NÃO É A QUESTÃO!
(é tudo imposição)

Queres que eu seja negro
da cor da noite das trevas?
Então sou!
E depois não digas que a mulher negra não é bela.
É tão bela como pode ser a tua mulher
que dizes ser, da cor da luz branca,
onde vive o divino!
Sou negro e depois?

Ah, não!!

Agora sou racista por aceitar com um sorriso
o que me impões e aceito,
e te devolvo?
Só quero igualdade.
Nada mais!
(JOÃO Craveirinha 02.06.2008)

Na negritude, o negro intelectual ao reagir não era para ser superior, mas igual ao branco que não queria essa igualdade e em muitos casos mantendo-se na actualidade, mesmo quando se afirmam como não racistas contra o negro. Alguma reacção residual surgirá, invertendo os papéis. Analise-se o caso da xenofobia inter-negro na África do Sul para alegria de muitos desse tipo padrão para dizer que o negro é pior que o branco.
Em Moçambique, na comunicação social, tornou-se norma com ajuda de alguns negros à deriva de si mesmos. E na comunicação social em Portugal ainda pior.
Des – contextualiza-se o fenómeno esquecendo que a essência da desumanidade não tem cor. É intrinsecamente genética, e nisso a Europa é a última a acusar de ânimo leve o africano. Foram os senhores e mestres do africano durante muito tempo. E se calhar ainda continuam.

“DEMOCRACIA, IGUALDADE E LIBERDADE:
“Porque é que os povos democráticos mostram um amor mais ardente e mais durável pela igualdade que pela liberdade?” Alexis de Tocqueville (1805-1859, França).
In Teorias Sociológicas p. 259.

É isso aí - no fundo o negro nem democracia queria porque não sabia o que era. Uma coisa importada e deturpada dos antigos gregos que são europeus. Daí a desconfiança.


Pois o colonialismo da Globalização, veio da Europa. O fascismo veio da Europa. O marxismo veio da Europa. A África pós-colonial tem sido (como no passado) um laboratório de experiências de tudo que já está a ficar ultrapassado na Europa e no mundo ocidental.

Essas modernidades vêm da Europa (assim como os dinheiros da corrupção para África). No fundo mesmo, o negro queria (quer) é ser tratado como igual. Lá dizia o Tocqueville e era europeu.

As coisas positivas deixam de ter cor e nação. Passam a ser universais. O racismo e a xenofobia só assim serão superados.

Saber peneirar na m’benga o capim da mapira.

Exempli gratia:
ADEUS À HORA DA PARTIDA

Agostinho Neto
(Poeta-mor de Angola)

“Eu já não espero
sou aquele por quem se espera
(…)
Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico”
(...)

Agostinho Neto (1974). Sagrada Esperança. Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa.

Este poema da Negritude é um manifesto contra o racismo colonial português…ao mesmo tempo e duplamente, associando e dissociando “o homem rico” com a cor da pele.

Uma premunição à Angola independente. Em que o homem rico deixou de ter cor. Pois passou a ser da cor do dinheiro.

OS POETAS SÃO COMO OS GATOS. VÊM EM MUITAS DIMENSÕES: ESPREITAM O PASSADO; VIVEM NO PRESENTE; E PROJECTAM-SE NO FUTURO QUE PARA ELES JÁ É PRESENTE.

Em baixo um manifesto contra a xenofobia neste poema do tio paterno do autor destas notas de reflexão:

“TERRA DE CANAÃ

Não, piloto israelita.
Inútil procurares nos incêndios de Beirute
e nos inocentes corpos mutilados pelos estilhaços ardentes
as belas palavras do Cântico dos Cânticos. (…)

Poeta-mor José Craveirinha (10.08.1982 de regresso do Líbano)

in F. Mendonça, N. Saúte (1983). Antologia da Nova Poesia Moçambicana (p.211).
E na hora da partida destas notas de reflexão, saboreiem a poesia de Agostinho
Neto na voz e na autêntica Música de Angola por Rui Mingas, ao alcance de um click:
http://www.esnips.com/doc/93bbecc8-d3e1-48f7-a02e-6a7c26d46894/Adeus-à-hora-da-partida (09.05.2008)
.
©João Craveirinha"

23 abril 2007

Morreu Boris Yeltsin

(há quem também, hoje em dia, o copie nas suas campanhas eleitorais… foto ©daqui)

Morreu o primeiro presidente eleito por via democrática da Rússia, o senhor Boris Yeltsin.
Não seria mais que uma notícia “normal” salvo, talvez, o impacto de ter sido o primeiro presidente russo eleito por via democrática (1991-1999).
Por outro lado não seria mais que uma notícia de um homem, com uma idade já interessante mesmo para a Rússia, 76 anos, que, di-lo-iam, ter sido altura de pagar pelos excessos com que sempre pautou a sua vida, quer a nível de bebidas alcoólicas, de ter feito uma intervenção cirúrgica delicada, ou de outras atitudes que são dispensáveis de aqui serem referidas.
Só que, apesar dos médicos comunicarem que a sua morte se deveu a uma insuficiência cardíaca progressiva, também dizem, afirmam, que a sua actual vida e boa forma física não faziam prever este desenlace
Estranho?!
Não me parece! Principalmente quando vem dos lados de Moscovo…
Também há uns anos – lá para os idos de Setembro de 1979 –, um antigo presidente africano, – a sua biografia oficial é omissa até quanto à data do passamento –, foi fazer um ormal e natural “check-up” a Moscovo e regressou numa urna por, segundo os médicos soviéticos de então, ter falecido na mesa de operações devido a problemas cardíacos e hepáticos.
Consta-se que esse Homem queria sair da órbita soviética…

18 setembro 2006

O dia do herói nacional

É assente em Angola que o mês de Setembro está ratificado como o mês do Herói Nacional, devido ao aniversário do nascimento [17 de Setembro] do reconhecido como primeiro presidente de Angola independente, o poeta, o político e médico Agostinho Neto.
Não se discute essa homenagem, por quanto ela é justa.
Foi um poeta insigne e um político com uma perspectiva visionária do país que outros ainda não conseguiram compreender ou apreender “Vamos o mais rapidamente possível construir a nossa nação independente, construir a democracia para o povo e redistribuir as riquezas do pais”.
Agora o que já se questiona é saber se Agostinho Neto é, ou foi, o único Herói Nacional se tomarmos em linha de conta pelo facto de ter sido líder de um Movimento emancipalista que lutou pela independência de Angola.
Nesta linha, e independentemente das simpatias partidárias ou do carácter dos mesmos, existem, pelo menos, mais dois grandes líderes que devem gozar do estatuto de Herói Nacional: Holden Roberto e Jonas Savimbi; ambos foram reconhecidos como líderes carismáticos que, cada um à sua maneira, lutou pela independência do nosso país.
E outros houveram que de uma forma anónima ou mais reconhecidamente se evidenciaram na defesa da independência do país.
Aceita-se e respeita-se a data.
Agora o que se deve exigir será que, já que está consagrada como a data de celebração, que o dia seja extensível a todos os Heróis Nacionais angolanos independentemente da sua filiação partidária.
É altura de deixarmos de celebrar uma qualquer data só porque a pessoa X, em detrimento da pessoa Y ou Z, goza de mais simpatias num determinado sector que noutro; se queremos que Angola seja um viveiro da Paz, da Fraternidade e da Coexistência pacífica entre todos, devemos, então, respeitar todos por um todo – Angola – e não pelo endeusamento de uma entidade ou individualidade.
E nós sabemos que Agostinho Neto, como humanista que foi, desprezava o endeusamento.

17 setembro 2005

António Agostinho Neto (1922-1979)
A minha Homenagem pela passagem de mais um aniversário do nascimento, em Kaxicane, a 17 de Setembro de 1922, do Médico, Poeta, Político e Homem de Estado, cuja a morte, em Moscovo e numa altura em que, segundo alguns, estaria a tentar fugir da órbita soviética, nunca foi cabalmente explicada. Será que algum dia o será?

O Choro de África

O choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas
nos batuques choro de África
nos sorrisos choro de África
nos sarcasmos no trabalho de África

Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda
no círculo das violências
mesmo na magia poderosa da terra
e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas
e das hemorragias dos ritmos das feridas de África
e mesmo na morte do sangue ao contacto com o chão
mesmo no florir aromatizado da floresta
mesmo na folha
no fruto
na agilidade da zebra
na secura do deserto
na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos
mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens

o choro de séculos
inventado na servidão
em historias de dramas negros almas brancas preguiças
e espíritos infantis de África
as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas

O choro de séculos
onde a verdade violentada se estiola no circulo de ferro
da desonesta forca
sacrificadora dos corpos cadaverizados
inimiga da vida
fechada em estreitos cérebros de maquinas de contar
na violência
na violência
na violência

O choro de África é um sintoma

Nós temos em nossas mãos outras vidas e alegrias
desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas – por nós!

E amor
e os olhos secos.
(In: Sagrada Esperança, pág.119)

12 setembro 2004

Dois vultos da cultura afro-lusófona

12.Setembro 17.Setembro
Se ainda estivessem neste lado, Amílcar Cabral, hoje, e Agostinho Neto, a 17 de Setembro, fariam 80 e 82 anos, respectivamente.
Já há muito que passaram, mas a a sua enorme obra literária e cientifica perdura.
Apesar da sua obra política ser mais e melhor conhecida, são dois dos maiores vultos da cultura afro-lusófona. Todavia, nem por isso merecem uma atenção mais desenvolvida por parte das organizações portuguesas.
Na CIDAC – Centro de Inf. e Doc. Amílcar Cabral nada vejo sobre o seu patrono; já quanto a Agostinho Neto, em Sintra, decorre uma exposição sobre ele.
E quanto ao resto? Um simples vazio.