06 fevereiro 2007

Nem pelo SIM nem pelo NÃO…

… mas pela Liberdade e Consciência de cada um e de cada uma.
Portugal vai a referendo sobre a chamada Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG), mais comummente reconhecido por “aborto”.
A pergunta a referendo “concorda com a despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?”, é, por extensão da mesma, absurda como tem sido apanágio nas ainda poucas perguntas referendadas em Portugal.
Acreditam os parlamentares portugueses que a formularam que os eleitores a vão ler no dia do referendo? Será que duvidam que mais de 50% – e para não dizer, a quase totalidade – dos eleitores não a conhece e que quando for colocar a “X” irá sob o espectro do SIM ou NÃO à aprovação do aborto que, realmente, não é o que está em questão mas, tão-só, a despenalização da mulher que o praticar, livremente, até a uma determinada data?
Será que todos os que andam em campanha já se dignaram a explicar realmente o que está em questão?
Quero crer que não! Das poucas – assumo, muitíssimas poucas – vezes que ouvi os tempos de antenas uns defendem, porque SIM, outros recusam-na, porque NÃO. Nem porque Sim, nem porque Não! Só SIM, porque a mulher é livre, é dona do seu corpo, porque será um nascimento desejado, etc., ou NÃO, porque já é uma pessoa, ou porque é um crime perante Deus – só se entende porque a Igreja (Católica ou da Reforma, ambas criticam-no, embora uma se cale porque a outra fala demais) só reconhece a religiosidade de uma pessoa, em plenitude, quando baptizada –, ou… etc., etc., etc.!
Mas nenhum fala dos perigos físicos e psicológicos em que uma mulher se entrega quando pratica o “aborto clandestino” e, ou, efectuado sem as mínimas condições técnicas e higiénicas, dos ganhos que algumas clínicas auferem com os IVG fora de Portugal.
Uns querem o SIM outros o NÃO. E estes que defendem o Não já param para pensar que a IVG já é uma realidade jurídica em Portugal, embora sob determinadas circunstâncias? Até hoje só ouvi uma pessoa do Não defender claramente o Não em qualquer eventualidade. Não haverá, apesar de alguns tentarem, através de testemunhos pessoais justificá-lo, um certo (im)pudor dos que defendem o Não?
E agora, quando o escrutínio se aproxima, é que uns quantos decidiram, apesar de defenderem o NÃO, que a mulher não deve ser criminalizada por praticar, livremente e sem, à partida, quaisquer condicionalismo, o aborto.
Mas é isso mesmo o que a pergunta coloca: se deve ser ou não despenalizada; ou seja, para os que entendem menos bem o português, se deve ser ou não culpabilizada.
Por isso, é que me faz certa dúvida a pouca coragem dos parlamentares portugueses em assumirem o seu voto de consciência na Casa de todos os eleitores, o Parlamento, e obrigarem os eleitores a pagarem, através dos seus impostos, um referendo que, tudo parece indicar, será mais um “fiasco” ao ponto de já haver quem vaticine que poderá ser o último a ser realizado em Portugal. Como os entendo! Embora, no futuro, pudesse haver situações que deveriam ser referendadas e não o serão, como por exemplo a adopção da “Constituição Europeia” ou a construção megalómana do aeroporto da Ota, etc.
Estive até há pouco tempo sem saber se haveria de votar ou não.
Uma notícia do Angonotícias, sobre o aborto clandestino em Angola, tirou-me todas as dúvidas. Pensando nas minhas compatriotas que o praticam clandestinamente em Angola, vou votar.
Se SIM ou NÃO é um acto da minha exclusiva Consciência e, até provas em contrário, o voto – em Democracia, aquele que é colocado dobrado em urnas – é secreto.
Mas, não gostaria que por causa de um voto meu, uma mulher – apesar de não concordar com o poder leonino que a pergunta lhe confere – pudesse ser presa.
Este blogue, que não o autor, não é pelo Sim nem pelo Não, mas pela liberdade de cada pessoa actuar segundo a sua plena e livre consciência!

05 fevereiro 2007

E agora Timor?

Mari Alkatiri viu o seu processo judicial arquivado por falta de provas, pelo Procurador-geral da República (PGR) tendo já dito que espera um pedido de desculpas de Xanana e Ramos Horta.
Perante estes novos factos, quais serão, agora, as posições do primeiro-ministro Ramos Horta e do presidente Xanana? E, mais importante ainda, da Austrália, um dos seus mais encarniçados “acusadores”?
E se, face a este novo desenvolvimento, Alkatiri concorrer, como o já terá dado a entender, às presidenciais, pela Fretilin, em 9 de Abril próximo, como se posicionará o primeiro-ministro Ramos Horta perante este partido, apesar de já dele se ter desvinculado?

Tartaruga marinha santomense em perigo? - artigo

"Há cerca de um ano, São Tomé e Príncipe foi palco de um importante Encontro Internacional sobre conservação de tartarugas marinhas cujos múltiplos e principais objectivos eram: alertar para as ameaças com que esta espécie, e outras, se confrontam; tentar encontrar alternativas socioprofissionais e económicas para as famílias de pescadores e de palaiês, cuja fonte de rendimento muitas vezes se centra apenas na captura, comercialização e transformação das tartarugas marinhas; conciliação do turismo natureza com a conservação; e criação de regulamentação ambiental de enquadramento com consequentes formas de fiscalização e de monitorização.
Nesse encontro, que teve o patrocínio e acompanhamento do presidente Fradique de Menezes, dos os Ministros do Turismo e do Ambiente, entre outros representantes institucionais santomenses, e das Embaixada de França e de Portugal, foram preparadas e elaboradas recomendações que foram entregues ao Ministro do Ambiente
"...
Parte de um texto publicano no semanário Correio da Semana (STP) que pode ler, na íntegra, acedendo aqui.

Crianças-soldados, atirem a primeira pedra…

África, de uma maneira geral, mas também a América Latina e a Ásia, nomeadamente o Médio Oriente, são reconhecidos, justa, ou injustamente, não está isso aqui em discussão, de manter nas suas guerrilhas privadas e particulares crianças como mercadoria para todo o uso, nomeadamente, nas frentes de batalha: as célebres crianças-soldados.
Infelizmente, parece que o célebre ditado “quem não tem pecados atire a primeira pedra” aplica-se agora aqui.
Segundo um artigo do matutino português Correio da Manhã, o exército britânico terá mandado soldados com idades inferiores a 18 anos para o conflito do Iraque contrariando um acordo assumido com a ONU – um protocolo adicional à Convenção da ONU sobre os Direitos das Crianças, no qual se estabelece os 18 anos como idade mínima para o recrutamento compulsivo e a participação em acções de guerra. Segundo o ministro britânico da Defesa, Adam Ingram, “foram “inadvertidamente” enviados para o Iraque 11 rapazes e quatro raparigas de 17 anos”.
Faz o que eu digo, não faças o que eu faço…
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ADENDA: Entretanto, e num oportuno alerta lido aqui, em Paris está a decorrer uma Conferência Internacional sobre esta problemática que tem tanto de estúpida como de injusta; não seria altura de se considerar a prática de utilização de crianças em actos de guerra como um Crime Contra a Humanidade? e levar os canalhas que fomentam este acto ao TPI?

04 fevereiro 2007

O 4 de Fevereiro, uma outra visão

(esta é a única homenagem luandense conhecida ao Cónego Manuel das Neves)

por: Jaime de Sousa Araújo Júnior*

Há quem diga que “A História faz-se” no sentido de que a história é a que nós – homens – quisermos fazer ou a que melhor nos aprouver. Por não ser um intelectual, por não possuir formação universitária, quer em Filosofia, quer em História, deixo esta forma de dizer e transmitir aos que possuem aqueles ou outros cursos universitários, uma vez que parece terem o saber para assim dizerem.
Preferimos que a história, aquela que deve ser transmitida e ensinada, continue a ser a narrativa dos factos e que o resto, para além de ruído de fundo, não passe de interpretações e análises dos que legitimamente o fazem. A versão de qualquer facto histórico, para mim, modestamente enquadra-se no que acabamos de referir: interpretação e análise.
O 4 de Fevereiro é um marco histórico que enobrece a Nação Angolana. Falar do 4 de Fevereiro de q961, ainda hoje, se torna uma tarefa difícil, por parecer provocante para uns e incómoda para outros tantos. Fazemo-lo com a simplicidade que nos é apanágio, e com o adequado rigor moral e honestidade intelectual. Fazemo-lo tanto quanto aos factos ocorridos e estritamente registados e ainda quanto a memória nos permitir deles lembrarmo-nos.
Recordar o 4 de Fevereiro é permitir que outros saibam que naquele dia do Ano da Graça de Nosso Senhor, de 1961, um número significativo de Nacionalistas Angolanos produziram factos que, para sempre residirão na memória colectiva dos Angolanos e que marcarão a história do processo de Libertação de Angola. Recordar o 4 de Fevereiro é lembrar a História, que em nossa opinião é como a vida dos Povos e das Nações, uma narrativa viva e dinâmica, que deve ser contada, lembrada e escrita para que faça parte da honra Colectiva dos Povos e se não apague da memória. Nós, Angolanos, temos memória colectiva e honramo-nos da Acção Armada levada a cabo no dia 4 de Fevereiro do ano de 1961.
Depois de um longo caminho por reivindicações para fim das desigualdades que davam lugar à escravatura e que se pusesse fim ao regime colonial, substituindo-o pela Independência, o ano de 1954 ficou marcado por acções internas de consciencialização das populações de Angola. Foi nesse ano que alguns angolanos residentes no Congo ex-Belga [actual República Democrática do Congo] se deslocaram a Luanda, com pretextos oficiais de renovar documentos e visitar familiares. Aproveitando essas deslocações contactaram com alguns compatriotas, como Cónego Manuel Joaquim Mendes das Neves, Vítor de Carvalho, António Pedro Benje, Francisco Weba e alguns outros nacionalistas. Destes contactos produziram-se as sementes do que viriam a ser, mais tarde, as revoltas de 4 de Janeiro e de 4 de Fevereiro de 1961. Células clandestinas, bem estruturadas e fortes, criaram-se; e, em 1951, as mesmas desenvolviam, particularmente em Luanda, um trabalho político intenso e também ele clandestino. Era a formação da consciência pela Libertação Nacional; irreversível e de acção cada dia mais abrangente.
Muitas destas células agrupavam nacionalistas como, Agostinho André Mendes de Carvalho, Garcia Lourenço Vaz Contreiras, Armando Ferreira da Conceição Júnior, João Fialho da Costa – também conhecido por Costa Nkodo, ou Kimpiololo – eram afectas à UPA [União dos Povos de Angola] e procediam a recolha de Quotizações (in: MEDINA, Maria do Carmo, “Angola – Processos políticos da Luta pela Independência”, págs. 137 a 153).
De toda esta acção clandestina destacam-se Herbert Pereira Inglês, Manuel da Costa Kimpiololo, que já nos deixaram, e João César Correia, por terem a difícil missão de assegurar a ligação entre o venerando Cónego Manuel das Neves, então já vice-Presidente, e a Direcção da UPA no exterior. Sobre a orientação do Cónego, outros nacionalista se juntaram, como Paiva Domingos da Silva, Neves Bendilha, Imperial Santana e Virgílio Souto Mayor.
Os anos foram passando e o Congo se tornava independente, em 1960, para júbilo dos Angolanos que viram, assim, reforçados os ânimos para levarem por diante os seus objectivos, fortalecidos com o desvio do paquete Santa Maria, pelo capitão Henrique Galvão que fragilizou o poder colonial. Relembremos que o desvio deste paquete trouxe inúmeros jornalistas das Agências Internacionais a Luanda, onde se previa que o navio acostasse, e ao Brasil, onde acabou por aportar. Isto trouxe Angola para as páginas dos grandes jornais e das importantes agências internacionais. Luanda chegou, na altura, ter o privilégio de ser visitada por um dos candidatos presidenciais dos EUA. Nessa visita, um membro da Administração, que clandestinamente era elemento de ligação entre o Cónego Manuel das Neves, procedeu a contactos com o candidato e estabeleceu o ambiente e o local para o encontro com o Venerando cónego.
Da conversa havida o candidato aconselho o Cónego a decidir-se por uma Acção Armada e Imediata.
Estavam assim estabelecidos o ambiente adequado, o tempo próprio e os estímulos para que na madrugada do dia 4 de Fevereiro de 1961 se desencadeasse a Acção Armada pela Independência.
Estes os factos. As versões, as interpretações e as análises ficam para quem as quiser ter e fazer. Todos têm legitimidade para tanto, sem que os factos deixem de o ser e da forma como foram produzidos
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* Vice-Presidente da Casa de Angola, em Lisboa [artigo da inteira responsabilidade individual do autor que deve ser complementado com a entrevista, hoje publicada, no Notícias Lusófonas]
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ADENDA: sobre a temática do 4 de Fevereiro, um dos principais Dias Nacionais de Angola, ler o artigo do Angonotícias onde algumas das personalidades evocadas por Jaime Araújo Jr. merecem também relevo.

03 fevereiro 2007

Destino ou Jornada?

("Destino", tela a óleo de Susana Bonet)
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Da poetisa moçambicana Suzete Madeira recebi esta questão/reflexão que deixo à vossa consideração:

"Quer nossa viagem seja por um rio ou pela vida, encontramos sempre dois tipos de pessoas. Há aquelas cuja mente está posta no destino, e no que farão quando chegarem. A viagem em si não atrai seu interesse. É algo que querem pôr atrás de si o mais rápido possível. Depois há aquelas cuja mente está voltada para a viagem, e no que experimentarão pelo caminho. A viagem até o destino é tão importante como o destino em si.
A vida é um destino ou uma viagem?
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A autora gostaria de receber a vossa opinião, que poderão deixar nos comentários