30 maio 2012

Duelo Senegal-Angola na Guiné-Bissau



O jornalista Bissau-guineense Aly Silva estampa no seu (nosso) blogue “Ditadura do Consenso” um tradução de um artigo de um cronista senegalês Babacar Justin Ndiaye, e publicado no passado dia 25 de Maio (por mero acaso, o Dia de África) no “Sud Quotidien”.

Vejamos algumas partes do referido artigo:

Por trás das manobras diplomáticas e do baile dos contingentes militares, a Guiné-Bissau torna-se, cada dia mais, um campo de colisão inevitável entre os interesses nevrálgicos do Senegal de um lado e os desígnios estratégicos de Angola, do outro lado. O duplo protagonismo da Comunidade dos Estados de Desenvolvimento da África Ocidental (CEDEAO) e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), desembocara inevitavelmente num choque frontal entre Dakar e Luanda. Duas capitais cujas intenções relativamente à Guiné-Bissau ultrapassam os planos de saídas de crise oficialmente tornados públicos e as resoluções publicamente votadas”.

Os ganhos para o Senegal, na cimeira da CEDEAO, tido em Dakar, o dia 3 de Maio, foram contrabalançados pelos ganhos obtidos pela posição Angolana e os países da CPLP, perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas, que votou, no 18 de Maio a resolução 2048”.

Mesmo assim, o Senegal ganhou a primeira parte da disputa através do plano de saída de crise da CEDEAO, que crucificou as autoridades derrubadas pelo Golpe de Estado do dia 12 de Abril, excluindo assim a restauração do poder legitimo” pelo que um “novo Primeiro Ministro de Transição apoiado pelos Chefes de Estado da África Ocidental, foi designado na pessoa de Rui Duarte de BARROS, ex-Ministro das Finanças do antigo presidente Kumba Yalá, derrubado num golpe e Estado em Setembro 2003. O novo Chefe do Governo tem por Ministro dos Negócios Estrangeiros, o pro-francófono Faustino EMBALI (refugiado em Dakar, depois do assassinato de Nino Vieira). E como cereja em cima do suculento bolo servido a Macky SALL, (um contingente militar senegalês constituído por unidade de engenharia militar, uma importante equipa médica e de Oficiais de contra-inteligência), serão enviados para Bissau, sob a bandeira das forças africanas da CEDEAO”.

Ou seja,

Macky Sall reedita, sorrateiramente a Operação Gabu. As tropas senegalesas chegaram em Bissau sem combater, nem ser combatido. Estrategicamente, o Movimento das Forcas Democráticas da Casamance (MFDC) vão ser cercadas – feitas sandwich- por oficias de segurança em actividades no território da Guinée-Bissau e por tropas de elite senegalesas em operações permanente na região de Ziguinchor(Há muito que a questão de Casamance andava em stand-by e tão calada…).

Dai se explica o jogo individual do Senegal bem encapotado no processo colectivo de saída da crise da CEDEAO. Dito de outra forma, uma preocupação e intenção aparentemente dissimulada do Senegal, mas com a condescendia do resto da restante comunidade. Posição contrária é firmemente assumida contra os golpistas do Mali”.

Perante estes factos como se posicionarão Eduardo dos Santos e Angola? O cronista pergunta se Eduardo Dos Santos, ficará numa “má postura” logo acrescentando que “seguramente, a resposta é não”. Porque, segundo na perspectiva do cronista senegalês “Apoiado na CPLP […], Angola contra atacou, provocando no dia 7 Maio […] uma reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, no decurso da qual, o Representante Especial do Secretario Geral das Nações Unidas para Consolidação da Paz na Bissau (UNOGBIS), o ruandês Joseph Mutaboba apresentou um relatório sucinto dos acontecimentos”.

Ndiaye recorda que “O peso dos países lusófonos contou muito - nomeadamente o do Brasil -, os membros do Conselho de Segurança (entre os quais figura o Togo, portanto ligado pelas decisões da CEDEAO) votaram unanimemente, a famosa resolução 2048 que diz o seguinte : «O Conselho de Segurança solicita aos Estados membros da ONU no sentido de tomarem todas as medidas necessárias para impedir a entrada e passagem nos seus territórios dos cinco repontáveis do Comando Militar, entre os quais o Chefe de Estado Maior, Antonio Injai e o seu adjunto o General Mamadu Nkrumah Ture»”. E que “Postado por Portugal, a resolução 2048 vai ao encontro das decisões da CEDEAO sobre a Guiné-Bissau e, em termos firmes: «Os 15 Estados membros do Conselho ordenam o Comando Militar a deixar o poder a fim de permitir o regresso à ordem constitucional»

Acresce e recorda ainda Ndiaye que “Na verdade, a vontade de Angola de fortalecer a sua posição na Guiné-Bissau permanece intacta tanto militarmente como economicamente. Luanda comprou um hotel em Bissau para alojar os seus oficiais da MISSANG, esperando a construção de novas casernas. No meio do mês de Abril, o Ministro da Defesa, o General Van Dunem viajou para Bissau. No capitulo politico, os Angolanos exploraram bem as falhas e fissuras no bloco pouco compacto da CEDEAO, e desencadearam uma operação de charme para obterem o apoio do Presidente Alfa Conde da Guiné Conakry que, recebeu calorosamente, no dia 16 de Maio, o Secretario de Estado dos Negocios Estrangeiros, Rui Manguerra, portador de uma mensagem pessoal de Eduardo Dos Santos” no que terá sido bem conseguida porque foi uma “Ofensiva bem alvejada e positivamente conseguida, quando se sabe que, Conakry e Praia foram intransigentes no que toca ao regresso à ordem constitucional, sinonimo do regresso ao poder de Raimundo Pereira e de Carlos Gomes Jr.

Resumindo, embora muito ainda haja no referido artigo:

O duelo Macky-Dos Santos será duro na Guiné-Bissau (fronteira da Casamance), onde Macky Sall joga o destino unitário do seu pais; e, Eduardo Dos Santos, por seu turno, tenta confortar os interesses duma potência da África Austral (Angola) com objectivos expansionista na zona. O confronto está à vista, mas será que os protagonistas têm armas iguais nesse confronto? Ao Senegal não faltam vantagens (proximidade e motivações), mas melhor ganharia a seguir prospectivamente esse pais tão perto, mas muito complicado, mobilizando equipas de «seguimento»... e de trabalho sobre esse seu vizinho que se dedica à anarquia politico-militar como principio. Do lado dos Negócios Estrangeiros, capacidades não faltam, tais como, Sua Exa. Omar Benkhtab Sokhna, o inamovível Embaixador do Senegal em Bissau durante os anos 90. E, a este título obreiro da vertente diplomática da operação Gabu decidido pelo presidente Abdou Diouf. As suas notas e testemunhos podem inspirar e orientar as melhores decisões do Governo.

Quanto à Angola – mesmo diplomaticamente pressionado e militarmente em retirada - ela não vai deixar as coisas ir por água abaixo. Angola dispõem em Bissau de laços e redes locais capazes de ajudar rasgar (sabotar) o mapa de saída de crise da CEDEAO. Uma margem de manobra herdada não apenas duma colonização em comum, mais também de uma camaradagem baseada numa osmose politica entre os quadros do MPLA e do PAIGC. Recorde-se que, os dirigentes do nacionalismo Angolano tais como Lúcio Lara, Luis de Almeida e o escritor Mario de Andrade davam aulas ou animavam regularmente seminários na Escola dos quadros do PAIGC baseado, na época, na Guiné-Conakry”.

Ou seja, e uma vez mais, estamos na presença de uma disputa pelo domínio de uma região de duas potências regionais embora, uma, claramente, regional – Senegal – e outra com características, cada vez mais bem vincadas, com tendência multirregional enquadrada na minha tese potencial de definida como Instrumentality power” já aqui explanada – Angola!

Podem ler o texto (versão portuguesa) integralmente aqui

27 maio 2012

27M e vão 35 anos...



(Na época, uma foto de nitistas publicada pelo Jornal de Angola e recordada pelo semanário Novo Jornal, em 2009**)

Decorrem hoje 35 anos que aconteceu uma das páginas mais negras da história político-social de Angola.



Há 35 anos ocorria, o nunca esclarecido, fratricídio do 27 de Maio entre militantes do MPLA, então MPLA-Partido dos Trabalhadores.


De um lado, apoiantes de Agostinho Neto, à época o presidente da então República Popular de Angola, e do então major José Eduardo dos Santos, relator do Processo movido a Nito Alves.

Do outro, precisamente Nito Alves - a quem se atribui a autoria da famosa carta que conteria as não menos famosas "13 Teses de Nito Alves", embora haja que as mesmas teriam sido escritas por um militante e comissário político em Cabinda de nome Pedro Santos(*) - e de outras personalidades que fomentariam o "fraccionismo", assim então foi descrito pelo apoiantes de Neto, como Zita Valles, Ademar Valles ou José Van-Dunem.

É certo que houveram, esses são pelo menos os diversos testemunhos, mais ou menos credíveis, imensos mortos e centenas de detidos, alguns dos quais continuam desaparecidos.

Oficialmente, só estão referenciados como "mortos oficiais" 7 angolanos entre apoiantes e adversários: os 4 acima citados do "fraccionismo", Saydi Mingas, Helder Neto e Eugénio Veríssimo da Costa "Nzaji".

Esta foi uma crise que ultrapassou a gamela do MPLA. nela intervieram directa e indirectamente soviéticos e cubanos. Com a particularidade de, cada um, apoiar uma das facções. segundo alguns autores e analistas terá sido aqui que começaram a esfriar as relações entre a antiga URSS e Cuba.

Há quem também adiante que foi aqui que Neto começou a perde a "simpatia" de Moscovo e...

35 anos depois ainda há famílias que gostariam de fazer o devido luto.

Só que as autoridades angolanas, ou melhor, as cúpulas do MPLA mantêm um absurdo mutismo sobre o 27M e as suas consequências.

É altura do MPLA abrir-se, de vez, à comunidade e criar, internamente ou mesmo através do Governo nacional, na linha do que fez, e muito bem, a África do Sul e, mais recentemente, o Brasil, uma Comissão de Verdade onde tudo pudesse ser transmitido à comunidade e libertar todos os fantasmas.

Não creio que isso viesse a criar engulhos ao partido maioritário. Pelo contrário. A transpar~encia é o melhor remédio e as famílias respirariam, finalmente, mais facilmente!

Enquanto isso, muitos angolanos vão continuando a olhar para o 27M e esperando...


* Esta matéria pode ser lida no meu livro "Angola, potência regional em emergência", que está - ou pelo menos já esteve - à venda na Livraria da Chá de Caxinde!
** Esta foto também pode ser vista no meu livro!

NOTA: Uma rectificação e uma clarificação. A companheira de Nito Alves é Sita e não Zita como aqui escrevi. As 13 teses de Nito foram reconhecidas como as "13 teses em minha defesa"!
O meu agradecimento a quem me chamou a atenção.


Transcrito no Club-K (http://club-k.net/index.php?option=com_content&view=article&id=11360:27m-e-vao-35-anos-eugenio-c-almeida&catid=17:opiniao&Itemid=124)


e também, em versão espanhola em Misoafrica (http://misosoafrica.wordpress.com/2012/05/29/27-de-mayo-y-ya-son-35-anos/)

25 maio 2012

Dia de África...


Celebra-se hoje mais um dia do heterogéneo mosaico etnocultural do continente africano.

Mais um 25 de Maio cheio de promessas que, como sempre, se vão verificar serem vãs, pouco simbióticas e estéreis! Tal como tem sido prenhe nestes últimos 49 anos…

Um continente rico em terras aráveis férteis mas que continua, preferencialmente, a consumir o que vem de fora. (...)

23 maio 2012

Angola a votos a 31 de Agosto

O Conselho da República deu parecer e Presidente Eduardo dos Santos ratificou.


Angola vai ter as suas eleições legislativas (e indirectamente, presidenciais) no próximo dia 31 de Agosto.


Eleições ou plebiscito será algo que os angolanos terão de discorrer e mostrar o seu habitual e carismático bom senso!...


Entretanto, que até lá, os "miúdos" sejam recolhidos para que o bom caminho para o voto não seja manchado...

22 maio 2012

CEDEAO posta em causa por causa dos golpes…


Supostamente a CEDEAO como organização regional dentro da União Africana e a esta subordinada – assim o pensamos – deveria condenar, com todas as forças toda e qualquer atitude que pusesse em causa os princípios constitucionais dos seus Estados-membros e,, naturalmente, Estados subscritores das determinações dimanadas da Comissão da União Africana e dos seus Conselhos de Ministros.

Deveria, mas como recentemente verificámos com os golpes de Estado no Mali e na Guiné-Bissau isso não está a acontecer.

Ou seja, quando caminhamos para a celebração dos 49 anos da Unidade Africana constatamos que ainda perdura a vontade das armas – a grande maioria dos Golpes de Estado têm forças castrenses por detrás – ou a supremacia neocolonial – quase sempre nas crises da África Central e do Sahel, está o Quai d’ Orsay / DGSE e ou o Foreign Office / SIS.

Pois ao arrepio de tudo o que a União Africana tem preconizado e declarado, a CEDEAO, apesar de criticar e sancionar os golpistas não só nada fez contra eles como tem implantado novos Presidente e Governos.

Foi assim no Mali onde o novo presidente reconhecido pela CEDEAO é o líder golpista como o foi na Guiné-Bissau onde o presidente em exercício até futuras – nem que seja lá para as calendas – eleições é o antigo presidente da Assembleia Nacional Popular e, pasme-se – ou talvez não – o terceiro posicionado nas recentes e não completadas eleições presidenciais, Serifo Nhamadjo, e um Governo decidido entre os golpistas e as poucas fontes que os apoiam.

Se na Guiné-Bissau ainda há alguma poeira no ar, embora sem grandes tempestades, no Mali manifestantes invadiram o palácio governamental e agredira o líder colocado no poder por acordo entre golpistas e CEDEAO que teve de obter tratamento.

Triste, deplorável, que os dirigentes da CEDEAO também lá não estivessem para poderem melhor ponderar o que lhes pode esperar.

É que um dos supostos actuais líderes da CEDEAO e seu actual presidente em exercício, parece andar a esquecer como chegou ao poder…

21 maio 2012

Timor e a defesa do português


O presidente Taur Matan Ruak, hoje na escola Ruy Cinatti, num discurso televisto na RTP Informação, e em resposta a Cavaco Silva, fez a apologia do português, embora com os naturais condicionalismos de uma língua não materna.

Ruak firmou que “o português veio para ficar” até porque o tétun já incorpora, e cada vez mais, verbos portugueses na sua expressão linguística; mas há que compreender que o português não deve ser visto como o tétun, ou seja, como língua-mãe, mas como uma língua estrangeira e, por esse facto, deve começar a ser aprendida com a estruturação de uma língua nova.

É que, segundo Ruak, o português, gramaticalmente, e uma língua fácil para os timorenses e, por esse facto, deve ser defendida, mas…

O “mas” já ele tinha explicitado!

Entretanto, Ruak condecorou Ramalho Eanes antigo presidente da República Portuguesa que, juntamente com Rui marques, impulsionou o envio do navio Lusitânia Expresso para águas timorenses, na altura subjugadas à Indonésia.