Olhar para a fotografia é como percorrer a Rua do Quicombo
com o olhar de antigamente. No primeiro plano, o Cine São Paulo impõe a sua
presença, guardião de tantas matinés da minha juventude. Logo a seguir,
enfileiram-se os três prédios camarários e, ao fundo, a fechar o horizonte a
azul, o “Prédio do Livro”. A minha memória habita exactamente ali: no terceiro
prédio a contar do cinema, no último andar, na última casa do lado da rua. Foi
a nossa última morada em Luanda, antes do meu regresso ao Lobito, em 1975.
Saber da recuperação do Cine São Paulo traz um aconchego ao
peito, acompanhado do desejo quase infantil de que a intervenção não se tenha
ficado pela cosmética da fachada e que aquela sala volte, de facto, a projectar
histórias na penumbra.
Aquele pedaço de rua era a linha invisível que dividia dois
mundos: a cidade do asfalto, de um lado, e a poeira do musseque, do outro. Logo
ali ao lado, numa rua paralela de terra batida, fervilhava o Mercado de São
Paulo. A minha mãe nem hesitava: preteria a imponência do mercado do Kinaxixe,
pela proximidade humana daquele mercado de terra. As peixeiras já a conheciam
pelo nome e sabiam exactamente o que lhe vender, respeitando com um carinho
quase terapêutico a colite nervosa que a acompanhava. Havia uma solidariedade
informal que só os bairros sabem cultivar.
Mas 1975 trazia também o cheiro a pólvora. Foi ali mesmo
que presenciei a primeira “união” de força entre as facções militarizadas dos
três movimentos e a tropa zairense de Daniel Chipenda.
Tudo começou por causa de um insensato que decidiu disparar
um tiro para o ar – uns dizem que no prédio do meio, outros que no primeiro,
logo a seguir ao Cine – para travar uma discussão que prometia acabar em duelo.
Ninguém soube explicar a tempo o que se passava e o mal-entendido desencadeou
uma busca porta-a-porta.
À nossa casa, calharam-nos as FALA1, que se comportaram com uma educação e
um respeito impecáveis. Enquanto isso, a tropa portuguesa mantinha-se em
posição defensiva nos terrenos do “Prédio do Livro”, de olhos postos no
Sambizanga. Mais tarde correu o mujimbo2
de que estavam ali apenas de corpo presente, com as armas desprovidas de
munições.
Apesar de tudo, guardo uma profunda saudade da liberdade
daqueles dias. Andava por todo o bairro e entranhava-me pelo Sambizanga fora
sem ponta de medo, pelo menos enquanto o sol brilhava. A noite, essa sim, era o
território da maka3,
rasgada pelo espectáculo trágico e fascinante dos very-lights4 a cruzarem o céu escuro de Luanda.
Notas:
1. FALA – Forças Armadas de Libertação de Angola a
("mílicia" da UNITA):
2. mujimbo = boato;
3. maka = problemas;
4. very-lights = balas tracejantes muitos usadas
durante os conflitos entre os 3 movimentos na cidade de Luanda