13 julho 2026

Guiné-Bissau: Golpe militar de Novembro de 2025 foi um “golpe de teatro” ou um “golpe constitucional encenado”

 A leitura que se faz da actual situação toca no cerne daquilo que vários analistas e até a oposição guineense classificam como um possível “golpe de teatro” ou um “golpe constitucional encenado” e com muitas características de “encomendado” para anular os resultados das eleições de 23 de Novembro de 2025 e que a oposição reclamava total vitória (presidencial e parlamentar).

Para compreender o xadrez político que levou aos acontecimentos de 26 de Novembro de 2025 e à actual dinâmica de 2026, é preciso separar os argumentos oficiais da liderança militar da mecânica política de sobrevivência do presidente Umaro Sissoco Embaló.

1. Os Fundamentos Oficiais dos Militares

Quando o auto-proclamado Alto Comando Militar para a Restauração da Segurança Nacional e Ordem Pública tomou o poder a 26 de Novembro de 2025, justificou a intervenção alegando:

·        “Emergência Nacional” e ruptura institucional: os militares invocaram a necessidade de travar a instabilidade político-social e os fortes confrontos que ocorriam na capital;

·        Preservação da ordem pós-eleitoral: o Coup d’ Etat foi desferido estrategicamente um dia antes da divulgação oficial dos resultados das eleições gerais de 23 de Novembro de 2025 (nas quais Sissoco Embaló concorria à reeleição e a oposição reclamava vitória). O argumento oficial foi o de “congelar” um cenário iminente de guerra civil.

2. A “encenação” e o suporte a Sissoco Embaló

Embora o Alto Comando Militar tenha detido Sissoco Embaló nas primeiras horas do golpe, a evolução dos acontecimentos demonstrou uma total sintonia de interesses, levantando a forte suspeita de que o Coup d’ Etat serviu os propósitos do próprio Presidente deposto:

·        Libertação e exílio facilitados: ao contrário de Domingos Simões Pereira (imediatamente detido pelas forças armadas e mantido sob restrições severas), Sissoco Embaló teve canais abertos com o estrangeiro desde o primeiro minuto e foi rapidamente transferido de avião para o Senegal, “são e salvo”;

·        Aprovação da agenda de Embaló: o maior indício de cumplicidade surgiu já em Janeiro de 2026. O Conselho Nacional de Transição (controlado pelos militares) aprovou à pressa uma nova Constituição para o país. Este texto fez exactamente o que Sissoco Embaló tentava fazer desde 2020: alterou o equilíbrio de poderes, esvaziou a Assembleia Nacional Popular e reforçou drasticamente os poderes do Presidente da República.

3. Foi um Golpe para evitar a perda de poder e a responsabilização jurídica?

Tudo parece indicar que sim. Esta é a tese mais robusta partilhada por juristas e pela oposição. Antes das eleições de Novembro de 2025, o país caminhava a passos largos para a consolidação de um regime presidencialista forte e autocrático comandado por Sissoco Embaló, que já tinha dissolvido o Parlamento anteriormente e governava por decreto.

Se a coligação da oposição (PAI-Terra Ranka) vencesse as eleições de Novembro de 2025 e assumisse o controlo efectivo das instituições do Estado, o cenário mudaria drasticamente:

1.    Risco de destituição e detenção: com uma maioria parlamentar legítima e tribunais civis independentes, Sissoco Embaló arriscava-se a enfrentar processos de destituição (impeachment) e investigações criminais por abusos de poder e violações constitucionais;

2.    Perda de controlo das Forças Armadas: o novo Governo civil teria a legitimidade de reformar as chefias militares, ameaçando os privilégios e a influência dos generais leais ao regime de Sissoco.

Em conclusão, pode-se interpretar, ainda com todas as reservas que a matéria impõe, que o golpe militar acabou por ser o instrumento perfeito para travar a transição democrática nas urnas.

Ao suspender o processo eleitoral antes que a derrota de Sissoco fosse oficializada, os militares protegeram o Presidente de uma eventual responsabilização jurídica e, em troca, utilizaram o período de transição em 2026 para redesenhar a Lei Magna do país à imagem dos desejos autocráticos de Embaló, mantendo a oposição - e Domingos Simões Pereira – neutralizada pelos tribunais militares.

E a CPLP tal como já foi referido no texto anterior, abertamente – não sabemos o que se está a passar nos esconsos corredores diplomáticos – continua a estar calada ou, segundo palavras da sua Secretária Executiva, Dra. Maria de Fátima Jardim – diplomata muito discreta mas activa –, a Guiné-Bissau é um dos 9 Estados-membros da CPLP

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