O meu amigo
Orlando Castro analisou com a frontalidade e acutilância que se lhe reconhece uma recente reportagem da televisão portuguesa TVI sobre os portugueses em Angola, perdão, em Luanda.
Chamou-lhe sem medos “
de neocolonialismo” aquilo que a reportagem mostrou.
Não sei se poder-se-á afirmar tal mas não andará muito longe da verdade!
Só que o que li no
Semanário Angolense, edição 213 deste fim-de-semana, mostra que o neocolonialismo está bem mais refinado do que pensava.
Uma empresa portuguesa de construção civil decidiu abrir um colégio, em Luanda, na zona de Talatona, a nova Luanda Sul, onde “
os professores da instituição virão todos de Portugal e os princípios orientadores da instituição reger-se-ão pelo cumprimento integral dos currículos definidos pelo Ministério da Educação Português.”
Pois é, só que nem o Ministério da Educação angolano nem a entidade responsável para autorizar a abertura do Colégio parecem ter conhecimento desta intenção de abrir “
em Setembro deste ano, (…) um dos colégios mais caros do continente africano. O colégio S. Francisco de Assis, com início de construção marcado para este mês de Maio, em sistema pré-fabricado, estará situado na nova zona residencial de Talatona, Luanda Sul, por detrás do Centro de Convenções. A matrícula neste novo colégio custa USD 4000.00 (quatro mil dólares norte americanos) ao ano, tanto para o jardim-de-infância como para o ensino secundário. Cada trimestre custa 5 ou 6 mil dólares, consoante o caso. O horário regular de funcionamento do colégio vai das 7:30h às 15:30h. Se os pais quiserem que os filhos fiquem por mais tempo, até as 18:30h, o que não será difícil, dados os horários de trabalho praticados em Angola e as dificuldades de circulação em Luanda, deverão pagar mais 300 dólares. No colégio S. Francisco de Assis, os almoços custarão 500 dólares se for comida da escola. Se o aluno levar a refeição confeccionada em casa deverá pagar 200 dólares pela utilização do refeitório. Os lanches do colégio ficarão por 150 dólares.”
Com preços destes ou os angolanos andam a nadar em dinheiro ou dificilmente conseguirão alterar e subir no Índice de Desenvolvimento Humano.
Ou, então, os novos colonizadores portugueses dão razão às “
acusações” de Orlando Castro quando afirma que a reportagem da TVI mostrou o neocolonialismo na sua mais lídima expressão.
Segundo aquela reportagem, os portugueses entrevistados – foram muito poucos para que a amostragem seja minimamente credível – afirmavam estar em Luanda porque ganhavam muito, mas muito, mais do que em Portugal; que tinham excelentes moradias e não sei quantos (cinco num dos casos) empregados domésticos.
Um maus exemplo daqueles que estão lá para ajudar o País a se desenvolver e a dar razão àqueles que dizem que para terem lá portugueses mais vale terem congoleses, zambianos ou zimbabueanos já para não dizer chineses, ou os brasileiros que os angolanos mais apreciam.
É que ao menos estes não enganam e não mostram mais do que são. Ou seja, estão lá para ganhar o deles sem levantarem ondas nem se porem em bicos de pés evidenciando um nível de vida pouco consentâneo com a realidade angolana, em geral, e a luandense, em particular.
Ora como não acredito que haja tantos portugueses em Luanda, porque o colégio é para Luanda, que justifiquem este novo empreendimento e ainda por cima em pré-fabricado; será que a empresa que está há muitos anos em Angola sabe como é a temperatura no país? Ou será quem teve a brilhante ideia está sempre dentro de 4 paredes bem aclimatizadas e sai delas directamente para um carro com bom ar condicionado?
Provavelmente deve ser isso.
Tal como em Portugal as coisas são tratadas nos gabinetes desconhecendo a realidade local e nacional.
E com reportagens como aquela é natural que se possa criar escolas pré-fabricadas com preços indicados.
Continua a haver poucos com muitíssimo para gáudio de outros tantos que querem continuar a moinar ou pachecar do máximo em pouco tempo…
Por favor parem de gozar com a chipala dos angolanos!
Se os há ricos, e os hão, a maioria mal consegue (sobre)viver com o que ganham. E também estes têm – devem ter – direito à educação.
Talvez por isso, só um dos entrevistados tinha um seu filho numa escola pública angolana.
Porque será?
Será que a
educação portuguesa é melhor? Então não percebo porque há em Portugal quem tanto verbera o ensino português.
Se querem ajudar a desenvolver o Pais de acolhimento façam-no criando mais escolas que permitam o acesso a todos, sejam angolanos, portugueses ou outros lusófonos.