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04 janeiro 2009

Kassange, 48 anos depois…

(imagem ximunada daqui)

"… continuam as mesmas questões a sobressaírem nas comemorações.

Não elevam a capacidade e a vontade dos agricultores em combater o
livre arbítrio da empresa belga que dominava a região e que colocava os povos da Baixa do Cassange quase como escravos ou objectos se trabalho.

Não se preocupam quais as razões que estavam subjacentes à revolta iniciada em Dezembro e que, previsivelmente e de acordo com certas informações nunca confirmadas pelo regime português nem pelo Arquivo Histórico lusitano que continua, estranhamente – como muito bem recorda
Orlando Castro –, numa esconsa gaveta, teve o seu apogeu numa alvorada de um 4 de Janeiro com o massacre dos camponeses angolanos.

Continuam a não se preocupar se foi uma revolta de base ou se teve líderes políticos desde que possa, politicamente, se aproveitar do facto. (...)
" (Pode continuar a ler aqui ou aqui)
Publicado no
, "Colunistas", de hoje

05 janeiro 2007

O massacre de Kassange

(efeitos da napalm que terá sido usada em Kassange; será que ficaria alguém para contar?; imagem daqui)

Ontem decorreu mais um aniversário do Massacre da Baixa do Kassange, celebrado como o Dia dos Mártires da Repressão Colonial.
Uma vez mais os números de mortos divergiram. Foram dos 10 mil evocados no Angonotícias e na Angop, às “centenas de camponeses” de acordo com a Angop, passando pelos 5 mil da Angop e pelos 7 mil do Angonotícias; mau, antes era 10 mil, agora 7 mil e também já foram só 5 mil alguma coisa escapou os editores do Angonotícias e da Angop; acontece, embora já nem o secretariado do MPLA fale naqueles números mas, sensatamente, em massacre indiscriminado.
Não está em causa o massacre mas os números avançados. Sobre isso, a minha opinião já foi transmitida num artigo do ano passado e publicado no Notícias Lusófonas, sob o título “Guerras de memórias da Baixa do Cassange”.
O que agora ressalva é, o facto da Associação para o apoio e Desenvolvimento da Baixa do Kassange decidir apresentar uma queixa-crime contra o Governo português. Este pedido poderá vir a ter o apoio do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos
Penso que é uma medida que se saúda porque, caso vá em frente irá, talvez e de uma vez, possa esclarecer a amplitude do massacre.
Mas penso que a Associação também deveria colocar a então empresa belga empregadora, a Compª de Algodão de Angola (Cotonang) em tribunal dado que foi, segundo rezam crónicas verbais da altura – porque sejamos honestos o que foi escrito foi-o em função daquilo que algumas pessoas transmitiram, nomeadamente, militares e administradores da empresa empregadora –, a empresa belga que solicitou o envio de militares para acabar com uma greve laboral que exigia respeito pelos contratos assinados, entre eles a ida dos trabalhadores aos seus locais de origem.
Não esqueçamos que eram, na sua maioria, provenientes do sul de Angola; os tais “contratados” muito bem celebrizados por Agostinho Neto e Mingas.

15 janeiro 2006

Ainda Kassange

Com o título “As guerras de memórias de um massacre em Angola” o Jornal de Notícias, sob a pena de Carlos Gomes traz, hoje, um duplo-artigo (estranhamento o sítio do JN não inclui esta matéria) sobre a questão “Baixa do Cassange” e o aproveitamento político da mesma bem assim a impossibilidade dos historiadores poderem quantificar as vítimas pela gritante falta de registos disponibilizados por quem de direito.
Não se questiona aqui a manutenção de um número absurdo, aproveitado, em dado tempo, pelo regime angolano no pós-independência que, conforme conversa havida por mim com o referido jornalista mostrei ser impossível que poder ser provada e quantificada nos termos que alguns analistas do regime apresentaram – só quem não conhece a hidro e orografia do terreno poderia admitir estes números como verdadeiros e na forma como anunciados – nem que continue a aceitar como admissível datas que também lá estão referidas.
Que os historiadores angolanos – e portugueses – tenham dificuldades em gerir o tema pela impossibilidade de aceder a certos registos ainda em posse de Portugal e ainda temporalmente resguardados é natural que se conjecture; incorrectamente, mas politicamente aceitável.
Agora que se dê guarida a uma informação de um investigador espanhol que se diz na posse de documentos secretos sobre Portugal, dar como admissível que o massacre não aconteceu em 4 de Janeiro, mas entre 24 de Janeiro e 2 de Março é realmente desconhecer a realidade angolana do tempo. Que ele afirmasse que a crise começou ainda em finais de 1960 – a “greve” (mais correctamente, a contestação social) ocorreu na última quinzena de Dezembro de 1960 e teve o apogeu, supostamente (aqui entre o chamado arquivo costumeiro ou oralidade) no massacre de 4 de Janeiro – e que se tenha prolongado até meados de Março com a insurreição armada da UPA, dando origem a luta de libertação armada angolana, seria admissível essa teoria. A matéria referida pelo investigador espanhol Josep Cervelló e citada no JN refere-se, claramente, à insurreição da UPA, em Março – embora não nos efectivos contornos por ele descritos – e não à crise de Cassange.
Agora teorizar que a crise ocorreu no período indicado é estar mal informado ou, então, a História terá de ser toda reformulada.
É que apesar de melhor preparados, os belgas – na prática os verdadeiros donos da Cotonang – já não estava no local para poderem “armazenar” historicamente os acontecimentos. Os poucos que lá estariam eram refugiados do Congo e, naturalmente, anti-Bélgica e pró-governo português. Logo, e mesmo que os números fossem gigantesco como parece terem sido, nunca iriam divulgá-los com a amplitude minimamente correcta; as comunicações eram deficientes; e, finalmente, caso estivessem no terreno com o bombardeamento que ocorreu, teriam perecido tal como os angolanos, não ficando ninguém para contar. Só as autoridades que lá foram mais tarde… muito mais tarde, e os militares que estiveram presentes em combate(?).
Mas, o levantamento desta questão traz uma nova contrapartida para a análise político-histórica dos grandes acontecimentos afro-lusófonos das décadas de 50/60: o efectivo e descomprometido debate das guerras ultramarinas e uma pressão para que os factos sejam melhores estudados por ambas as partes, sem constrangimentos e claramente.
Só que para isso, o arquivo histórico e militar português tem de ser aberto à comunidade científica.

ADENDA: Este apontamento foi igualmente editado no Notícias Lusófonas, na rubrica Opinião.

04 janeiro 2006

4 de Janeiro, o levantamento de Kassange

Decorre hoje, o 45º aniversário do levantamento da Baixa do Kassange, Malange, considerados por alguns como o primeiro grande momento da rebelião nacionalista angolana.
De facto, foi a 4 de Janeiro de 1961 que trabalhadores da firma Cotonang se revoltaram, tendo a rebelião sido fortemente reprimida, essencialmente por via aérea, causando inúmeros mortos.
Mas o que se estranha é que, 45 anos passados, pouco ou nada se sabe deste facto histórico.
Mais estranho, ainda, sendo o 4 de Janeiro um feriado nacional angolano.
Tão estranho quanto, até finais do século XIX, era um reino independente e de difícil de submissão.
Realmente onde pára a História de Angola...