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15 julho 2008

Se a moda pega…

(al-Bashir numa proveitosa visita à China; foto ©daqui)

Tal como aqui já tinha referido, confirma-se que o Tribunal Penal Internacional (TPI), a pedido do seu principal promotor, Luis Moreno Ocampo, vai solicitar a detenção do presidente sudanês Omar Hassan Ahmad al-Bashir por crimes contra a Humanidade, crimes de guerra e liderança no genocídio contra o povo de Darfur; de notar que o TPI já tinha feito, anteriormente, uma acusação destas ao Governo sudanês.

Mas só este autocrata, déspota e corrupto presidente africano é que é o único nessa situação?

Não haverá outras situações, sob a desculpa proteccionista do petróleo e outras, que poderiam também ser objecto de mandados de captura por crimes contra os seus povos?

Pela posição incomodada do Conselho de Paz e Segurança da União Africana, há alguns dirigentes africanos que já estão a sentir as barbas – mesmo que não as tenham – de molho…

Mas se o acto do TPI é de louvar – já tinha dado mostras que não andava a dormir quando deteve Jean Pierre Bemba, do Congo Democrático – também não devemos esquecer que há actores do Sistema Internacional que detém iguais culpas por, sistematicamente, se manterem quedos e calados perante tais atrocidades ou manterem apoios militares descomplexados.

E aqui louva-se a atitude de actores, artistas e humanistas que clamaram fortemente contra a situação no Darfur obrigando as mentes púnicas de alguns dirigentes africanos e Mundiais a clamarem contra o genocídio!

Mas enquanto houver petróleo em certos Estados o poder poderá estar garantido. O que lá está já se conhece; o que para lá vai pode negociar com outros e…

Por outro lado, cada vez mais se compreende porquê os EUA rejeitaram (e impuseram regras nas relações com os seus parceiros políticos e económicos) o TPI…
.
NOTA: depois de haver alguns dirigentes africanos a tremerem e a rogarem que a ONU não leve por diante esta detenção, agora é o senegal a pedir ao TPI uma derrogação na detenção por um ano. Algo me diz que a velha máxima de "nas costas dos outros vemos as nossas... começa a surtir algum efeito nas regiões abdominais de uns quantos...

13 dezembro 2006

Padre ruandês condenado por genocídio

O padre ruandês Athanase Seromba, primeiro religioso católico julgado pelo Tribunal Penal Internacional para o Ruanda (TPIR), foi hoje condenado a 15 anos de prisão pela sua participação no genocídio de 1994 naquele país.

Ontem foi o ditador etíope Mengistu, hoje o TPIR condenou um religioso católico que estava encarregue da paróquia de Nyange, na localidade de Kivumu, na província de Kibuye onde se tinham refugiado cerca de 2000 pessoas, a maioria tutsi, e que foram chacinadas quer por militares e milícias Interahamwe quer, segundo a acusação, por ordem do próprio prelado que mandou destruir a paróquia com máquinas escavadoras e matar os sobreviventes à facada.
Mas este não é o primeiro veredicto do TPIR. Em Fevereiro de 2003, um pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Elizaphan Ntakirutimana, fora condenado a 10 anos de prisão e na Bélgica, um tribunal local condenou duas freiras ruandesas entre 12 e 15 anos de prisão pela sua intervenção nos massacres ruandeses.

26 novembro 2006

Ruanda e França em rompimento

Há dias escrevi aqui um apontamento onde alertava para as preocupações que poderiam derrapar as relações franco-ruandesas, devido em grande parte ao eventual tomada de posição dos militares franceses em não anular ou mesmo pactuar face ao etno-genocínio ruandês.
Na sequência desse processo um juiz francês, Jean-Louis Bruguiere, terá afirmado que só a Frente Patriótica Ruandesa (RPF), actualmente no poder, tinha mísseis capazes de abater o avião onde seguia o então líder radical huto e presidente do Ruanda, Juvenal Habyarimana, em 1994. Segundo afirma aquele juiz francês terá provas de que terá sido Paul Kagame, actual presidente do Ruanda, a ordenar o referido assassinato, episódio que levou radicais hutus a assassinarem cerca de 800 mil ruandeses, a maioria da etnia tutsi.
Ora como Kagame goza de imunidade, devido ao seu actual estatuto, o citado juiz propôs que o mesmo fosse investigado pelo Tribunal Internacional para o Ruanda enquanto, simultaneamente, emitia mandados de captura contra 9 colaboradores do presidente ruandês.
Tal atitude francófona levou o Ruanda a expulsar o embaixador de França do país e a romper relações diplomáticas com Paris.
Os Estados são livres de tomar as iniciativas que considerarem mais correctas e oportunas para a defesa dos seus interesses. Não esqueçamos que os Estado não têm amigos mas interesses a defender.
Todavia, se Kagame nada tem a esconder nem a temer e como tem se mostrado como paladino da defesa da verdade no que concerne ao etno-genocídio ruandês não se vislumbra porque ficou melindrado por ser investigado.
Quem não deve não teme.
Por outro lado, foram os ruandeses que despoletaram esta situação quando, bem ou mal, está um Tribunal francês a julgar esse processo, acusaram os militares franceses de pactuarem com o citado e ignóbil etno-genocídio que, ainda hoje, continua a fazer vítimas quer entre os que mais o sentiram quer entre aqueles que, directa ou indirectamente nele participaram. O Tribunal Marcial do Ruanda condenou um antigo comandante do Exército ruandês, o general Laurent Munyakazi, à prisão perpétua por actos de genocídio e crimes contra a humanidade e o bispo Wenceslas Munyeshyaka, actualmente refugiado em França, à prisão perpétua por participação em actos e cumplicidade no etno-genocídio.
Por isso, e como quem não deve, não teme, não se entende esta tão radical decisão de Kigali face a Paris.
Ou será que, pelo contrário, os telhados de vidro são tão finos que o melhor é atirar com os franco-atiradores para o mais longe possível. Não vá alguma pedra, mais certeira, perfurar a carapaça da virtude…

30 março 2006

Darfur, a memória anda curta

(poster retirado daqui)

“O presidente do Sudão, Omar El-Beshir, reafirmou a sua oposição ao destacamento de uma força da ONU para garantir a paz na região de Darfur.
"Não aceito, nem aceitarei nenhum destacamento de forças internacionais em Darfur", afirmou o chefe de Estado à cadeia de televisão Al-Jazira
.”
Darfur continua na ordem do dia e na memória curta de algumas pessoas, nomeadamente daquelas que acham que não se deve ter receio de Virgina Woolf, esquecendo que tem sido esta mesma quem mais tem “complicado” a vida às NU no Conselho de Segurança, impedindo este de tomar medidas mais radicais contra o Sudão.
Até lá as populações da região vão sofrendo.

04 agosto 2004

días estranhos

Permitam-me fazer um trocadilho com este título que é o nome de um blogue ?Será que neste Mundo tão globalizante e multicultural ainda há dias estranhos?
Interessante a análise política que hoje tive o prazer de ler em días estranhos um blogue hispânico (galego) sobre a crise humanitária de Darfur (que o Prof. Nuno Severiano Teixeira afirma ainda não ser genocídio??? – também no Ruanda se custou admitir esta palavra e com que resultado? proponho a leitura da ruandesa tutsi Yolanda Mukagasana "Não tenhas medo de saber").
Igualmente interessante é a sua proposta ao Ministro dos Assuntos Exteriores espanhol, senhor Miguel Ángel Moratinos e que poderia (deveria) ser estendida a todos os Governos europeus e, principalmente, africanos.
Duro ainda a análise que faz sob o título “Cinco centos e un”. De ler com muita atenção.

07 julho 2004

Darfur, até quando?

Sudão tem, ultimamente, estado nos media internacionais e pelas razões menos aceitáveis.
Na região de Darfur, antigo sultanato até ser integrado no Sudão em 1917, milhares de pessoas perecem por falta de condições minimamente humanas tendo já algumas organizações, o próprio Secretário-geral das NU, Kofi Annan e o Secretário de Estado norte-americano Colin Powell, considerado estarmos próximos de um abjecto genocídio.
Por esse facto, durante a reunião do Conselho para a Paz e Segurança da União Africana, os nossos líderes, reunidos nesta data (07/07) e apesar de desdramatizarem a questão – consideram nas suas gloriosas interpretações que ainda não existe um genocídio – insistiram com o governo sudanês para desarmar as milícias Janjawid, pro-Kartun, e que os responsáveis pela morte de civis e destruição de casas sejam severamente julgados.
Felizmente ainda não existe um genocídio.
Até porque esta semana ainda só morreram 70 pessoas e houve alguns milhares de desalojados.
Ou, porque de acordo com a União Interafricana dos Direitos
Humanos (UIDH), citada pela Panapress "os povos Four, Massalit e Zaghawa são particularmente os mais visados, e as mulheres, tratadas como escravas negras, são sistematicamente violadas, desumanizadas e deslocadas", isto se assemelha a uma espécie de genocídio.
Ou seja, uma questão de semântica.