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13 janeiro 2018

O paradoxo da África Austral e a Cimeira da União Africana

Sou citado neste artigo de Ana Sousa, no Vanguarda nº 50, edição de 12 de Janeiro de 2018, na página 34. A minha contribuição verificou-se por via electrónica, dado a autora, estar, na altura, em Angola.

NOTA: O Vanguarda sai, também em Portugal, como suplemento da edição do semanário português Expresso.



06 junho 2016

A Líbia, os Governos e as Armas assinaladas, no mês de África… (artigo)

"Este é o mês, esta é a semana que estamos a recordar e celebrar o Dia de África, o dia da União dos africanos em torno da sempre falada, solenizada mas sempre adiada unidade e solidariedade entre os Povos do nosso Continente.

Se houvesse não haveria disputas territoriais e fronteiriças entre alguns estados, não veríamos países a despejarem refugiados sob a desculpa – ainda que aceitável e possível – de no seu seio haver extremistas radicais, quando na realidade os estados já não conseguem suportar os elevados custos de manutenção do campos de refugiados e o apoio internacional escasseia, nem veríamos, muito menos, o que se passa na Líbia!

E é sobre este país que me desejo concentrar.

Recordemos, sem necessidade de aqui o voltar a escrever, como a Líbia se tornou num Estado falhado, desgovernado, e, acima de tudo, quase que totalmente despedaçado e quase pulverizado.

Escrevia-se e sublinhava-se que com o desaparecimento do ditador Kadhafi o país entraria numa nova linha histórica de desenvolvimento político, social e económico. Quem provocou a queda do regime de Kadhafi afirmava que o apoio futuro traria ao país um novo paradigma. A realidade mostrou o contrário.

Entretanto como que querendo disfarçar os problemas internos que grassavam após o fim da intervenção armada internacional foi instituído um suposto governo de unidade nacional em torno de um auto-denominado Conselho Nacional de Transição (CNT) cuja função seria preparar e levar a efeito eleições nacionais para o Congresso Geral Nacional, entretanto realizadas em 7 de Julho de 2012; após estas o CNT entregou o poder à assembleia recém-eleita em que teria a responsabilidade de formar uma assembleia constituinte a fim de redigir uma constituição permanente para o País, que depois seria submetida a um referendo.

Só que a realidade acabou bem diferente.

Prevaleceu a divisão do país por diversos grupos armados e liderados por clãs que só se interessavam por dominar as suas regiões de influência, algumas bem ricas, nomeadamente, em hidrocarbonetos.

O problema é que a maioria dessas regiões são no interior profundo do enorme Estado e sem acessos livres aos portos e ao escoamento dos seus produtos. Isso, naturalmente gera desaguisados que depressa se tornam em conflitos armados de ferocidade inqualificável. A ONU só viu uma solução, no imediato: decretar embargo de vendas de armas aos litigantes. (...) (pode continuar a ler aqui).

©Artigo de Opinião publicado no semanário angolano Novo Jornal, ed. 434 de 3-Junho-2016, secção “1º Caderno”, página 19.

27 maio 2016

A UA e o pan-Africanismo de hoje: Que pan-africanismo e que fronteiras haverão no nosso Continente no final do século XXI?


Texto que a seguir se transcreve parte, foi integralmente publicado no Pambazuka, na edição de hoje, em língua portuguesa e relativo ao dossiê: «The African Union and Pan-Africanism today / A União Africana e o Pan-africanismo de hoje: 58 anos depois»

Article-Summary: 
Desde tempos imemoriais que Africa tem sido um continente em constante movimento migratório, tanto a nível cultural – em particular devido aos movimentos recolectores e pastorícios, – seja a nível comercial ou militar. Que sentido tem hoje a união das nações africanas? Qual é o sentido do Pan-africanismo hoje?

1. Introdução
Em 25 de Maio de 1963 foi instituída a Organização de Unidade Africana (OUA) que visava a unidade entre os africanos recentemente saídos das várias independências derivadas das lutas independentistas; em Julho de 2002, e após proposta nada inocente do antigo líder líbio, Muammar Kadhafi, a OUA converteu-se em União Africana pela convenção de Durban. A nova UA visava e visa a integração política e económica dos Estados-membros africanos bem como a solidificação dos princípios do pan-africanismo.
Ou seja, dentro de dias serão comemorados 53 anos em que a unidade africana tenta ser um facto, mas que a realidade nos tem mostrado nem sempre ser verdadeira, como se mostrará ao longo deste texto.
Desde tempos imemoriais que Africa tem sido um continente em constante movimento migratório, tanto a nível cultural – em particular devido aos movimentos recolectores e pastorícios, – seja a nível comercial ou militar.
Foram esses movimentos migratórios que permitiram o período luz dos egípcios, os seus contactos comerciais e culturais com o reino Núbio, ou destes com os povos Monomotapa – região entre Moçambique e Zimbabwe onde, segundo algumas lendas estaria o mítico reino da rainha Sabá –, as migrações cartaginesas para além das colunas de Hércules até ao “golfo do Corno de Ocidente” e à “montanha do Carro dos Deuses[1], de onde o périplo de Hanão trouxe felpudas peles que, segundo os seus companheiros, seriam de fêmeas de gorilas, mas que, para autores como Ki-Zerbo, pertenceriam a pigmeus (o que me parece difícil dado que os pigmeus não são peludos) ou a chimpanzés (Almeida, 2004:18-20).
No entanto, as primeiras grandes migrações, que quase provocaram o desaparecimento do povo autóctone africano, os Khoi-san[2] (também ditos bosquímanos ou hotentotes, conforme as zonas), povos de tez amarelada e olhos amendoados, certamente os primeiros povos continentais, descendentes do “Kenyapithecus africanus”, do “Homo habilis” e do “Homem de Boskop”, verificaram-se com as invasões cataclísmicas dos Negros, povos negróides do Sudeste asiático, há mais de 200 séculos, com passagem pelo Sinai e pelo Mar Vermelho. De entre estes sobressaíram dois sub-grupos, os do Sudão Ocidental e os Ba’Ntu (Banto).
Sobre este facto recorde-se o recente livro da angolana Kiesse/Ôlo que citando os seus ancestrais familiares, ligados ao antigo Reino do Kongo, tanto afirmavam que os seus ancestrais eram provenientes do Egipto «Ambuta zetu, batuka kuna Ngipito» como explicavam que «O Yeto tu ana a Izael, tua tuka kuna Ngipito» (2016:32)[3].
De início, os Banto avançaram até às regiões equatoriais, onde se mantiveram durante milhares de anos. Com as migrações árabes, especialmente, aquele grupo desceu para a região do Cabo, onde chegou quase ao mesmo tempo que os calvinistas holandeses, os antepassados dos Africânderes. Em qualquer dos casos os grandes prejudicados foram os khoi-san que ficaram confinados a uma pequena região entre o deserto angolano do Namibe e a parte norte do Botswana embora existam uns quantos numa região no norte da África do Sul), ou seja, quase todo o deserto do Namibe/Calaári (Almeida, 2011:46).
Apesar da ainda existência física dos Khoi-san na África Austral, os Banto são considerados os verdadeiros povos autóctones africanos, esquecendo-se, seja por uma questão política, seja por uma questão sociológica, todos os outros membros genealógicos. Por outro lado tem-se a tendência, embora os últimos acontecimentos na região setentrional, em parte devido à Primavera Árabe, venham a demonstrar o contrário, a esquecer os povos caucasianos do Norte, os árabes, ou do sul, os africânderes.
Entre a formação da OUA e a transformação em União Africana, o Continente africano passou por diversas vicissitudes políticas, económicas e sociais importantes, nomeadamente, a transformação das antigas colónias europeias em – nalguns, poucos, casos de sucesso – potenciais Estados geradores de importantes polos de desenvolvimento económicos e políticos e militares.
O final dos anos 80 do século XX, particularmente após a implosão da antiga URSS, o fim do marxismo e a afirmação do neoliberalismo conservador, tão a gosto de Fukuyama ou de Friedman, tem sido apontado e caracterizado como sendo o grande responsável pelo movimento conducente à democratização do Continente Negro, com consequente proliferação de movimentos políticos, em especial na África subsaariana.
O norte africano debate um problema crucial: fazer coexistir os fundamentos de uma religião ainda, temporalmente, medievo ou, pelo menos assim a querem apresentar, não mutável e base de alguns sistemas políticos nacionais, com os ideais democráticos ditos ocidentais e laicos, onde o direito do Estado predomina sobre o direito eclesiástico. A “Primavera Árabe” foi – é – o exemplo vivo disso mesmo.
Vários processos eleitorais como no Chade e no Uganda, no Mali e na Nigéria, na Guiné-Bissau ou em Madagáscar, só para citar alguns exemplos, resultaram em Coup d’États ilegais e condenados pelas instituições internacionais, nomeadamente pela União Africana e que os centros decisórios regionais não conseguem fazer estancar, como os que se seguiram a uma transição, ainda que nem sempre tranquila, de sistema monopartidários para consagrados sistemas pluripartidários: Cabo Verde, Namíbia e África do Sul (ainda que alguns englobem, também neste grupo, Angola e Btswana) são vistos como exemplos a seguir.
Se a nível político, África tem registado evoluções e recuos sistemáticos, já a vertente cultural não tem sido descurada, (nem por alguma vez essa questão se poderia colocar), até porque, mais do que o desafio que à partida nos é imposto, África é uma miscelânea de culturas com que a todo o passo tropeçamos. Aliás, a primeira parte deste texto abordou uma das problemáticas culturais do continente, os fluxos migratórios, sejam internos, sejam externos, bem assim toda a influência que os mesmos tiveram na formação cultural e, mais tarde, na nova engenharia social e política da África em mutação.

2. Que perspectiva e que prospectivismo?
a. A Formação das duas Áfricas
Face aos actuais movimentos políticos – uns, contestatários, outros, de ruptura – que por quase toda a África persiste, é legítimo questionar se se trata de um sintoma em que o sistema partidário que nos querem impor está em involução e, como tal, a ser progressivamente substituído por um pluralismo cultural, ou, pelo contrário, estamos a caminho de uma vertente politicamente proto-mexicanizada[4] como se verifica em alguns Estados? (...)

Continuar a ler em: http://www.pambazuka.org/pt/pan-africanism/ua-e-o-pan-africanismo-de-hoje-que-pan-africanismo-e-que-fronteiras-haver%C3%A3o-no-nosso 

26 dezembro 2013

RCA em análise na RFI


Final do ano e análise para a RFI Português sobre a República Centro-Africana.

Bom ano a todos com os desejos que África olhe mais para a floresta e não tanto para alguma dispersa árvore e muito menos para o seu abstruso umbigo (na realidade o umbigo de muitos dos seus ineptos dirigentes)!

A análise pode ser "vista" aqui com acesso a audio.

17 janeiro 2013

E na recente crise do Mali…


A crise do Mali resultante da secessão da parte norte do país levada a efeito por rebeldes tuaregues ditos islamitas radicais – o que se estranha porque os tuaregues nunca foram radicais islamitas, em parte, devido aos efeitos do pós-independência da Argélia –, após uma tentativa de Golpe de Estado, liderada pelo capitão Amadou Haya Sanogo, o que obrigou a uma tomada de posição forte por parte da União Africana e da CEDEAO.

Tal como a verificada no Coup d’État (Golpe de Estado) da Guiné-Bissau.

Recorde-se que a secessão resultou na proclamação do Estado de Azawad, de matriz islâmica, pelo Movimento Nacional para a Libertação de Azawad (MNLA), a que se juntaram outros grupos rebeldes, incluindo radicais alegadamente ligados à al-Qaeda, como a Al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI) ou o Ansar Dine Islâmico, bem como sudaneses e alegados saauris; o Azawad é um território um pouco maior que a França, e que corresponde a cerca de dois terços da área total do Mali (ver imagem).

Ou seja, e em boa verdade, o que a UA e a CEDEAO fizeram foi já habitual um tiro no escuro, demasiado breu, sem quaisquer efeitos práticos – como em todos os Golpes ocorridos no Continente – pelo que necessitou da entrada de terceiros para que a questão tivesse outro caminho.

Foi o que aconteceu nestes dois últimos dias com a entrada das forças armadas francesas na procura da recuperação da integridade territorial do Mali após suposto pedido das autoridades malianas de Bamako.

Essa foi a razão oficial. No entanto, há uma outra razão substantiva e subjacente para que a França, com o apoio da ONU, da CEDEAO, da União Africana – por via da aplicação da Resolução 2085 da ONU, sobre o Mali, – e de alguns dos principais líderes africanos, como o presidente sul-africano, Jacob Zuma o confirmou, ontem, em Luanda, tenha começado a actuar no Mali: a eventual queda do presidente interino Dioncounda Traoré.

O governo de Traoré começou a sentir os reais efeitos da crise militar quando os rebeldes tomaram de assalto, no passado dia 10, a cidade de Konna – na região de Mopti, que já não faz parte de Azawad –, a cerca de 300 quilómetros a norte da capital, Bamako.

Não esqueçamos que Traoré ascendeu ao poder em Bamako depois da tentativa de um Coup d’État levado a efeito em Março de 2012, pelo capitão Sanogo que visou a queda do regime de Mamadou Toumani Touré, também ele tendo ascendido ao poder, em 2002, após um golpe de Estado.

Ora, a razão invocada para o Golpe foi o alegado descontentamento dos militares com a falta de meios para combater os rebeldes tuaregues no Norte do país. E, todavia, isso não impediu que os revoltosos, após o não apoio da UA ao Golpe, tenham sido os mentores da secessão tuaregue.

Acresce que os tuaregues são acusados de terem estado na linha da frente líbia a apoiar e sustentar o regime de Muammar Kadhafi até ao seu fim definitivo. Na fuga destes elementos bem treinados e armados para o norte do Mali levou que os mesmos acarretassem consigo muito material bélico, nomeadamente, armamento pesado.

Como este conflito pode provocar uma série de riscos elevados para todo o continente, nomeadamente, uma eventual violenta reação dos islamitas e um potencial desastre humanitário, vamos aguardar qual será o desenrolar final do conflito.

Que esta ajuda militar da França – que deverá ter o apoio das forças africanas da Afisma, (força africana de cerca de 300 soldados da CEDEAO) – não acabe como a ajuda militar humanitária da Líbia.

O ataque de islamitas a um bloco de extração de gás na Argélia – sob a denúncia deste país ter facilitado a travessia aérea das forças francesas para o Mali –, com a captura de reféns e o contra-ataque das forças argelinas para a recuperação do território não inferem bom augúrio.

Ainda assim, há a expectativa que, depois do fim da crise, a questão da Azawad seja assunto de uma análise ponderada e objectiva, visando a integridade territorial do Mali, mas... (basta ver o que aqui escrevi)

04 maio 2012

A tolerância zero em África?


Devido à questão do Golpe na Guiné-Bissau e a intolerância dos golpistas em aceitarem devolver o poder à classe política eleita (ou deficientemente eleita) por voto popular, leva – levou – a CEDEAO/ECOWAS a um desafio primordial: fazer equivaler o nível das suas decisões “à proclamada tolerância zero” perante situações de alteração da ordem constitucional por via da força.

Na realidade a CEDEAO limita-se a ser um mero reflexo do que se passa com a União Africana (UA).

Onde está a tolerância zero tão apregoada pela UA quando se verifica que o Mali continua sob poder dos golpistas e da secessão do país pelos tuaregues?

Onde está a UA que continua a ver, impávida e serena, o desmembramento da Somália?

O que fez – faz – a UA com a crise do Norte de África, nomeadamente no Egipto, ou na crise sudanesa?

Os africanos começam a estarem fartos de tanta “(in)tolerância zero” mal desbaratada!

26 novembro 2011

Marrocos foi a eleições

Em Marrocos, ocorreram ontem, sexta-feira, dia sagrado dos islâmicos, as eleições legislativas para a Assembleia, as quais não tiveram mais de 45% de participação eleitoral dos 13,5 milhões de eleitores inscritos.

Ainda assim, superior aos 37% ocorridos em 2007.

A maioria dos eleitores marroquinos preferiram acorrer às mesquitas que aos postos de votação.

Em alguns destes postos verificaram-se boicotes devido aos protestos do movimento 20 de Fevereiro que apoia(ra)m as manifestações da Tunísia.

A nova Constituição que teve um apoio significativo do eleitorado marroquino, desta feita, não conseguiu arregimentar eleitores.

As eleições parece que foram livres e transparentes mas será que se podem dizer totalmente legítimas quando menos de metade da sua população eleitoral preferiu desprezar um direito inalienável de suporte da Democracia?

Por certo que os 55% dos abstencionistas não serão sarauis…

Já agora, e apesar de Marrocos não pertencer à União Africana, como é que esta entenderá estas eleições?...

31 outubro 2011

Dia da Juventude Africana

(foto in pagina-global.blogspot.com)

Comemora-se, amanhã, 1 de Novembro, o Dia da Juventude Africana, com vários eventos a realizarem-se nos Estados-Membros da União Africana.

Os actos principais acontecerão em Cartun, Sudão, entre hoje e amanhã. com a presença do senhor Jean Ping, presidente da Comissão da União Africana que cuja mensagem focará, especificamente, a situação do jovem africano.

Nos tempos que correm, parece ter sido oportuna a mensagem de Eduardo dos Santos na última alocução à Nação, durante o seu discurso à Nação, na Assembleia Nacional, quando chamou para a situação específica dos jovens angolanos, contrariando alguns dos seus mais "ferrenhos" correlegionários...

11 abril 2010

Os Estados Unidos de África do senhor Kadafi…

Como se devem recordar, a Unidade Africana transitou de uma normal organização de Estados soberanos onde as diferenças eram – e são – notórias para uma tendencial organização supranacional que visa a unificação de todos os Povos Africanos.


Ou seja, e de uma forma muito simples, os dirigentes africanos estão a copiar os métodos, as regras, os objectivos dos seus vizinhos do Norte, a União Europeia. Se é bom ou mal, o tempo o dirá.


Eu, pessoalmente, sempre fui crítico de juntar no mesmo saco culturas e vivências completamente diferenciadas e que as recentes crises económicas e sociais europeias vão evidenciando.


E tal como na Europa, também em África, independentemente da maioria se considerar de ascendência Ba’ Ntu (bantu) existem culturas etnolinguísticas e diferenciadas que se reflectem até nas próprias relações externas e, porque não assumi-lo, internamente. E não esqueçamos que a Norte predomina uma cultura árabe-caucasiana e a Leste uma cultura miscenizada de núria-bantu.


Por isso a criação da União Africana foi um acto, reconheçamos arrojado, de alguns dos nossos dirigentes mas que se tem mostrado pouco consistente e, não poucas vezes, demasiado trôpego.


Mas será que se recordarão como surgiu a ideia da União Africana, de onde partiu e quais os seus originais objectivos? Sintetizemos…


Foi 9 de Setembro de 1999, em Sirte, Líbia, que o líder líbio Kadafi propôs a criação de uma tal União Africana, fazendo-o no pressuposto, e isto deve ser bem salientado e nunca esquecido, que a mesma deveria ser só – repito e sublinho SÓ! – para os países da África Negra abaixo do Deserto do Sahara, manifestando uma vontade inequívoca de separar as duas Áfricas que, pudicamente, os nossos líderes parecem ter já esquecido: a do predomínio árabe-caucasiana, a Norte, e a de maioria Negra, a Sul.


Na altura, quando escrevi sobre esta matéria, criticando e chamando a atenção para esta pseudo-simbiose de Kadafi que subjazia mais que uma separação Norte-Sul a vontade do líder líbio em ser um líder máximo de África, como o tentou, em Julho de 2009, quando propôs a criação de uma Autoridade para a União Africana que substituirá a actual presidência da Comissão Africana que disporia de plenos poderes em matéria de defesa, diplomacia e comércio internacional o que, na linguagem “diplomática” do senhor Kadafi seria um passo significativo para “um governo federal de uns futuros Estados Unidos de África”.


Recordemos como Kadafi se auto-denominou o “Príncipe dos Príncipes africanos”, e, mais tarde, o “Rei dos Reis africanos”, logo, arrogava-se de ser o líder de África.


Ouvi críticas acesas que iam desde neocolonialismo a retroconservadorismo. Como se costuma a dizer, se temos razão antes do tempo, deveremos calar, amadurecer e mostrar que as pedras enviadas acabam por nos formar a parede que nos protege e que nos permite mostrar que se estávamos – e no caso de estarmos –, eventualmente errados, não seria por muito como o tempo parece estar a comprovar.


A comprová-lo a sobreposição dos moderados (os gradualistas), ou seja, aqueles que desejam a integração pautada e com sobriedade dos Estados na União Africana, face aos mais expeditos (os imediatistas), ou seja, aqueles que desejavam a imediata e plena integração dos Estados africanos na nova organização e a criação dos Estados Unidos de África e ao Governo Federal proposto por Kadafi.


E se Kadafi se fortuitamente, esmoreceu não se calou como comprovam as veladas ameaças de deixar cair a União Africana, chegando dar-se ao luxo de advertir os “grandes países africanos” opostos ao seu Governo Federal contra a uma eventual liderança nas sub-regiões, apelidando-os de “Sérvia Africana” ou de “Rússia Africana”, porque, segundo o líder líbio, os tais “grandes países africanos” querem transformar as sub-regiões em zonas de influência para vender os seus produtos e os países em pseudo-colónias ou mini-Estados, mantendo uma eventual influência e predominância directora sobre os que os rodeiam


Como bem temos verificado, sempre que pode, e por vezes de forma nada discreta, o líder líbio tem intervindo na vida interna de alguns países onde a maioria islâmica prevalece ou pode vir a prevalecer. Aconteceu na Guiné-Bissau, quando da Cimeira da CPLP e quando propôs-se instalar um Hotel para Negócios que estaria isento de taxas naquele país, como tem contribuído, directa e indirectamente para a existência de múltiplos conflitos na região chadiana e centro-africana.


A mais recente aconteceu já esta semana ao apresentar uma palatal proposta aos nigerianos. Como se sabe a Nigéria, o mais populoso país africano e o maior produtor de crude do continente passa, ciclicamente, por convulsões internas sociais, políticas e, principalmente, religiosas entre o Norte muçulmano, onde predomina a sharia e o Sul maioritariamente animista e, ou, cristão, onde sobreleva o direito de raiz ocidental.


Um Norte onde o deserto e a pastorícia são denominadores comuns face à melhor qualidade de terras e de prados que sobressaem no Sul e, com elas uma agricultura se bem que de subsistência, levando, como habitualmente acontece entre os pastores estes procurem estas pastagens para a sobrevivência do seu gado. Ora agricultura e pastorícia nem sempre se dão bem e isso se tem verificado com as mortes recentes ocorridas na região de Jos, no Centro da Nigéria.


Pois o líder líbio nada mais fez que propor a este colosso de África, que se cinda e cria um País a Norte, só para os islâmicos, e outro a Sul, só para os outros. Ou seja, que a Nigéria se auto-destrua! Uma proposta tipicamente dos seus mortais inimigos anglófonos: “se não se entendem que se dividam”; e, assim, Kadafi iria buscar mais um futuro aliado para a sua pretensão de governar África além de acabar com um dos “grandes países africanos” que se lhe opõem e aos seus Estados Unidos de África e Governo federal…


Os outros, embora não claramente referenciados por Kadafi, estão na África ocidental, perto do “hotel”, outro na África oriental, na região dos Grandes Lagos, e os dois restantes na África austral…

19/Mar/2009


Inicialmente publicado aqui (igualmente publicado no , na "Coluna do Kamutangre")

23 fevereiro 2010

No Níger o líder da Junta autoproclama-se Presidente

(imagem Internet)

“O chefe de Esquadrão Salou Djibo, líder da Junta que derrubou quinta-feira passada o Presidente Mamadou Tandja, proclamou-se chefe de Estado do Níger, segundo um decreto publicado segunda-feira à noite.

No decreto assinado por Salou Djibo, o Conselho Supremo para a Restauração da Democracia (CSRD) é investido de poderes legislativos e executivo até a instauração das novas instituições democráticas, das quais ele é a instância suprema de concepção e orientação da política da nação.

O Presidente exerce as funções de chefe de Estado e de Governo, nomeia o primeiro-ministro, bem como os outros membros do Governo de transição e põe termo às suas funções, precisa o decreto.

A Junta decidiu igualmente criar, ao invés do Tribunal Supremo dissoluto, um Tribunal de Estado cuja composição, atribuições e funcionamento são fixados por decreto do Presidente do CSRD.

Os militares no poder decidiram também instituir um Comité Constitucional em substituição do Tribunal Constitucional.

O CSRD instaurou igualmente um Observatório Nacional da Comunicação que substitui o Conselho Superior da Comunicação (CSC).

Um órgão encarregue de preparar os textos fundamentais da República, nomeadamente a Constituição e o Código Eleitoral, vai igualmente ser criado.

O projecto de Constituição será adoptado pelo povo nigerino por via de referendo no termo dum período que será determinado pelo CSRD, que vai depois deixar o poder às novas instituições democráticas.

A Junta anunciou que um calendário dos diferentes processos políticos será publicado ulteriormente.” (fonte: ANGOP)

Comentário: E assim, e uma vez mais, a União Africana foi total e completamente ultrapassada.

15 julho 2009

Pululu pelos leitores: A nova Autoridade Africana

Da Dra. Eduarda Valente, da Universidade Lusíada de Angola, um comentário sobre “Estará África preparada para a nova Autoridade?” que, pelo conteúdo e pela conjuntura, foi transferido para aqui.

Olá a todos,
Obviamente chegou-se a uma nova outra Autoridade, proposta por Kadhafi, ora bem, quem investigou e muito bem foi Cheik Anta Diop, mas fê-lo sempre na perspectiva gradualista, ou seja, haver institutos superiores especializados, onde acima de tudo interviriam as mulheres.

Onde a saúde seria uma parte de sustenção da população africana que se debate com inúmemros problemas de doenças etc. O comércio esse nem se fala. Não conheço grandes indústrias em África, que se saiba quase tudo ainda é de subsistência. Não me parece por isso, que seja bem a ideia do Sr. Kadhafi ter estas preocupações no seu horizonte em perspectiva, não gosto de ser ofensiva e muito menos beliscar a personalidade de quem quer que seja. Mas convenhamos esta individualidade é um tanto ou quanto complexa para não dizer mais nada.

Principe só for o da Droga. A proposta efectuada de instalar um Hotel para Negócios que estaria isento de taxas na Guiné-Bissau, à beira de estado falhado dá-nos bem a dimensão da estatura do tipo de empreendimento e muito certamente para o que seria.

A meu ver existem realidades em África que são incontornáveis, de momento, claro está.

Mas, como o mundo é feito de mudanças. Só não nos podemos esquecer que o ideal é que se faça um desenvolvimento equilibrado e sem alicerces em droga e outras coisa negativas. Sim porque se o comércio for esse então muito mal nos vamos dar.

Se percorrermos os alicerces que temos vemos que é zero. Acho que temos de encarar a realidade. Assentar bem os pés no chão. Acho que o Sr. Kadhafi só vê a perspectiva em linha recta e ela no entanto tem várias nuances que temos que ultrapassar.

Cumprimentos

Eduarda Valente, Luanda

13 julho 2009

Estará África preparada para a nova Autoridade?

"Sirte viu decorrer a XIII sessão ordinária dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana e, uma vez mais, foi a cidade onde as mudanças para África viram a luz.

Uma cimeira que contou com a presença do presidente brasileiro Lula da Silva – que está em todas desde que os ganhos se chamem possível presença efectiva na possível futura composição do Conselho de Segurança da ONU, como vai estar também na reunião do G8 – previa que entre outros assuntos fossem debatidos a agricultura, a pacificação do continente centrando-se os debates da organização, na instabilidade dos pontos mais críticos, como a Guiné-Bissau e Somália e a celebração de 3 acordos afro-brasileiros, um dos quais o do desenvolvimento humano e social e assistência sanitária.

Mas tal como em 9 de Setembro de 1999, foi em Sirte – pelos vistos a sua cidade-fetiche – que o senhor Muammar Kadhafi, presidente em exercício, decidiu propor a criação imediata de uma nova Autoridade para a União Africana que substituirá a actual presidência da Comissão Africana. Naquela data propôs a alteração da OUA em União Africana.

Tal como em 1999, o senhor Kadhafi fez “beicinho” e perante a indecisão entre os imediatistas – aqueles que querem as alterações conducentes a uns Estados Unidos de África – e os gradualistas – aqueles para quem as alterações devem ser feitas com parcimónia e gradualmente – abandonou a cimeira que decorria em Sirte e só voltou quando soube que tinha vencido a sua tese de rápida alteração ao actual estatuto africano.

Daí que na madrugada da sexta-feira passada, 3 de Julho, o senhor Kadhafi tenha recebido o esboço de um documento que prevê a substituição da Comissão pela da Autoridade Africana que disporá de plenos poderes em matéria de defesa, diplomacia e comércio internacional o que, na linguagem “diplomática” do senhor Kadhafi será um passo significativo para “um governo federal de uns futuros Estados Unidos de África” há muito pedida pelo príncipe dos príncipes, ou seja, pelo todo poderoso coronel Muammar Kadhafi. (...)
" (continuar a ler aqui)
Publicado no , edição 224, de 11.Julho.2009

19 maio 2009

Os Estados Unidos de África do senhor Kadhafi…

Como se devem recordar, a Unidade Africana transitou de uma normal organização de Estados soberanos onde as diferenças eram – e são – notórias para uma tendencial organização supranacional que visa a unificação de todos os Povos Africanos.

Ou seja, e de uma forma muito simples, os dirigentes africanos estão a copiar os métodos, as regras, os objectivos dos seus vizinhos do Norte, a União Europeia. Se é bom ou mal, o tempo o dirá.

Eu, pessoalmente, sempre fui crítico de juntar no mesmo saco culturas e vivências completamente diferenciadas e que as recentes crises económicas e sociais europeias vão evidenciando.

E tal como na Europa, também em África, independentemente da maioria se considerar de ascendência Ba’ Ntu (bantu) existem culturas etno-linguísticas e diferenciadas que se reflectem até nas próprias relações externas e, porque não assumi-lo, internamente. E não esqueçamos que a Norte predomina uma cultura árabe-caucasiana e a Leste uma cultura miscenizada de núbia-bantu.

Por isso a criação da União Africana foi um acto, reconheçamos arrojado, de alguns dos nossos dirigentes mas que se tem mostrado pouco consistente e, não poucas vezes, demasiado trôpego.

Mas será que se recordarão como surgiu a ideia da União Africana, de onde partiu e quais os seus originais objectivos? Resumamos…

Foi 9 de Setembro de 1999, em Sirte (ou Syrte), Líbia, que o líder líbio Kadhafi propôs a criação de uma tal União Africana, fazendo-o no pressuposto, e isto deve ser bem salientado e nunca esquecido, que a mesma deveria ser só – repito e sublinho SÓ! – para os países da África Negra abaixo do Deserto do Sahara, manifestando uma vontade inequívoca de separar as duas Áfricas que, pudicamente, os nossos líderes parecem ter já esquecido: a do predomínio árabe-caucasiana, a Norte, e a de maioria Negra, a Sul.

Na altura, quando escrevi sobre esta matéria, criticando e chamando a atenção para esta pseudo-simbiose de Kadhafi que subjazia mais que uma separação Norte-Sul a vontade do líder líbio em ser um líder máximo de África, como o tentou, em Julho de 2009, quando propôs a criação de uma Autoridade para a União Africana que substituirá a actual presidência da Comissão Africana que disporia de plenos poderes em matéria de defesa, diplomacia e comércio internacional o que, na linguagem “diplomática” do senhor Kadhafi seria um passo significativo para “um governo federal de uns futuros Estados Unidos de África”.

Recordemos como Kadhafi se auto-denominou o “Príncipe dos Príncipes africanos”, e, mais tarde, o “Rei dos Reis africanos”, logo, arrogava-se de ser o líder de África.

Ouvi críticas acesas que iam desde neocolonialismo a retro-conservadorismo. Como se costuma a dizer, se temos razão antes do tempo, deveremos calar, amadurecer e mostrar que as pedras enviadas acabam por nos formar a parede que nos protege e que nos permite mostrar que se estávamos – e no caso de estarmos –, eventualmente errados, não seria por muito como o tempo parece estar a comprovar.

A comprová-lo a sobreposição dos moderados (os gradualistas), ou seja, aqueles que desejam a integração pautada e com sobriedade dos Estados na União Africana, face aos mais expeditos (os imediatistas), ou seja, aqueles que desejavam a imediata e plena integração dos Estados africanos na nova organização e a criação dos Estados Unidos de África e ao Governo Federal proposto por Kadhafi.

E se Mr. Kadhafi se fortuitamente, esmoreceu não se calou como comprovam as veladas ameaças de deixar cair a União Africana, chegando dar-se ao luxo de advertir os “grandes países africanos” opostos ao seu Governo Federal contra a uma eventual liderança nas sub-regiões, apelidando-os de “Sérvia Africana” ou de “Rússia Africana”, porque, segundo o líder líbio, os tais “grandes países africanos” querem transformar as sub-regiões em zonas de influência para vender os seus produtos e os países em pseudo-colónias ou mini-Estados, mantendo uma eventual influência e predominância directora sobre os que os rodeiam

Como bem temos verificado, sempre que pode, e por vezes de forma nada discreta, o líder líbio tem intervindo na vida interna de alguns países onde a maioria islâmica prevalece ou pode vir a prevalecer. Aconteceu na Guiné-Bissau, quando da Cimeira da CPLP e quando propôs-se instalar um Hotel para Negócios que estaria isento de taxas naquele país, como tem contribuído, directa e indirectamente para a existência de múltiplos conflitos na região chadiana e centro-africana.

A mais recente aconteceu já esta semana ao apresentar uma palatal proposta aos nigerianos. Como se sabe a Nigéria, o mais populoso país africano e o maior produtor de crude do continente passa, ciclicamente, por convulsões internas sociais, políticas e, principalmente, religiosas entre o Norte muçulmano, onde predomina a sharia e o Sul maioritariamente animista e, ou, cristão, onde sobreleva o direito de raiz ocidental.

Um Norte onde o deserto e a pastorícia são denominadores comuns face à melhor qualidade de terras e de prados que sobressaem no Sul e, com elas uma agricultura se bem que de subsistência, levando, como habitualmente acontece entre os pastores estes procurem estas pastagens para a sobrevivência do seu gado. Ora agricultura e pastorícia nem sempre se dão bem e isso se tem verificado com as mortes recentes ocorridas na região de Jos, no Centro da Nigéria.

Pois, o líder líbio não esteve a fazer mais que propor ao mais populoso país de África, que se separe e crie um País a Norte, só para os islâmicos, e outro a Sul, só para os outros. Ou seja, que a se auto-destrua! Uma proposta tipicamente dos seus mortais inimigos anglófonos (Reino Unido e os EUA): “se não se entendem que se dividam”; e, assim, Kadhafi iria buscar mais um futuro aliado para a sua pretensão de governar África além de acabar com um dos “grandes países africanos” que se lhe opõem e aos seus Estados Unidos de África e Governo federal…

Os outros, embora não claramente referenciados por Kadhafi, estão na África ocidental, perto do “hotel”, outro na África oriental, na região dos Grandes Lagos, e os dois restantes na África austral…

elaborado em 19/Mar/2009

04 março 2009

TPI emite mandado de captura contra al-Bashir

(imagem via Google)

O Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu hoje um mandado de captura contra Omar al-Bashir, presidente do Sudão, por causa do genocídio do Darfur.

Gostaria de saber quem serão os países que o vão fazer aplicar. De África, tirando um ou dois, as minhas dúvidas quanto à exequibilidade do mandado são mais que muitas até porque a União Africana já vai dizendo que vai tentar adiar a sua aplicação. A Liga Árabe também
alinha pela mesma diapasão. A China, um dos maiores apoiantes e suportes do regime do Sudão, é claro que não vai cumprir com esta ordem do TPI.

Ficam o Ocidente, nomeadamente os EUA, que acham que os "
responsáveis devem pagar" com os seus crimes.

Ah! já me esquecia, mas como os EUA,
tal como o Sudão, não reconhecem competência ou legitimidade ao TPI, al-Bashir estará sempre descansado cada vez que for aos States

07 fevereiro 2009

E o “rei” vai tentando…

"Como habitualmente, por esta altura, realizou-se, em Adis Abeba a reunião magna do Conselho de Chefes de Estado e de Governo da União Africana (UA). Foi a XII Cimeira que decorreu entre 2 e 3 de Fevereiro.

Uma vez mais os Chefes de Estado e de Governo africanos ponderaram a discussão de factos relevantes para África, como as sucessivas crises institucionais e políticas do continente, a fome, as guerras, aliados a assuntos de menor interesse como saber se Mugabe, no Zimbabué, deve ou não continuar a sofrer sanções internacionais ou de el-Bashir, do Sudão, se deve ser apresentado ou não ao Tribunal Penal Internacional.

Para os “ocupados” líderes africanos presentes nem as sanções devem manter, dado que já há acordo para a partilha de poder no Zimbabué – também há uns meses isso acontecia e depois viu-se que Mugabe não cumpriu – como o presidente sudanês não deve ser detido porque iria criar instabilidade na região – ou será que nas costas do vizinho, alguns líderes viram as suas e temem que também possam ser detidos por crimes contra os seus Povos? – Ambos devem não só sentir o peso das suas responsabilidades e serem presentes a Juízo. Mugabe continua a passar laudativas férias em Singapura e Hong Kong enquanto o seu Povo passa fome e pene sob o espectro da cólera.

Registe-se que nem todos os Chefes de Estado e de Governo africanos estiveram presentes. Dos 53 Estados membros da UA só 21 se fizeram representar a alto nível. Tudo porque alguns dos Chefes de Estado e de Governo preferiram pautar pela não presença, tendo sido representados por figuras menores; os líderes africanos já perceberam que alguns Coup d’État ocorrem na sua ausência; e porque será que não foram? será que têm contas estranhas a pagar?

Outras das matérias abordadas nesta Cimeira foram alguns documentos que se previam pudessem entrar em vigor por já terem sido ratificados por um número mínimo de Estados. Entre eles encontravam-se a Constituição da Associação das Organizações Africanas de promoção do Comércio, a Carta Africana do Transporte Marítimo e a Carta Africana da Democracia, Eleições e Governação. Destes, só os dois primeiros entraram provisoriamente em vigor.

A Carta Africana da Democracia, que todos os líderes africanos andam a dizer que já está implantada e quase consolidada em África só – repito, SÓ! – foi ratificada por 2 (DOIS!) Estados: a Etiópia e… Mauritânia.

Porque será? (...)
" (continuar a ler aqui)
Publicado no santomense , edição 201, de 7/Fev./2009

Democrata desde que ganhe…

A República Malgaxe, na quarta maior ilha do mundo e a maior de África, Madagáscar, está em polvorosa entre o edil da câmara de Antananarivo, capital malgaxe, o Andry Nirina Rajoelina, e o presidente eleito, Marc Ravalomanana.

Rajoelina – o “jovem TGV” como é conhecido devido à vontade rápida de ascender ao poder e também por causa do partido que ajudou a criar, o Tanora malaGasy Vonona (Juventude Malgaxe Determina) – acusa Ravalomanana de "derivas autoritárias e de práticas ditatoriais" e de ser "um regime que ridiculizou a Constituição" pelo que quer a sua imediata destituição. Esta foi uma das razões para que o líder malgaxe não estivesse na recente XII Cimeira da União Africana (UA) que avisou os adeptos do TGV para não tentarem derrubar o presidente porque não seriam reconhecidos.

Enquanto estes dois homens-fortes se digladiam o primeiro-ministro Charles Rabemananjara solicitou a destituição de Rajoelina por desvio da conduta autárquica – por contornar essa disposição o edil nomeou Michèle Ratsivalaka, a sua adjunta para a área dos Assuntos Sociais, Cultura e Lazer, como líder camarária temporária – e deu ordens ao exército e à polícia para disparar sobre uma manifestação mobilizada pela empresa de média de Rajoelina, causando cerca de 30 vítimas mortais.

Há, segundo especialistas malgaxes razões para o descontentamento populacional que grassa na ilha de Madagáscar. Mas também é verdade qe muito desse descontentamento tem sido fomentado pelo edil de Antananarivo que vê neste descontentamento uam forma de chegar mais depressa ao poder presidencial, mesmo que para isso, e como tem sido habitual desde meados dos anos 70 do século passado, haver, periodicamente, golpes de Estado institucionais sem cobertura, directa, militar, como relembrou Désiré Ramakavelo, um antigo ministro das Forças Armadas.

Refira-se que Andry Rajoelina já se auto-nomeou presidente e pensa apresentar os membros do seu Governo em breve. Também há quem diga que esta tomada de posição de Rjoelina se deve ao facto do edil da capital malgaxe estar sob supervisão do antigo presidente Didier Ratsiraka.

É por estas e por outras que na última Cimeira da UA só dois países ratificaram a Carta Africana da Democracia, Eleições e Governação. Para quê ratificar uma coisa que só existe no papel na maioria dos Estados africanos. Democracia sim, mas desde que eu seja o vencedor e dono do poder…
Posteriormente publicado no , na rubrica "Opiniões e Análises"

02 fevereiro 2009

E tudo coronel Kadhafi tenta…

Um dos maiores sonhos do presidente líbio coronel Muammar Kadhafi, quando em 1999, propôs em Syrtre, a criação da União Africana era, logo que possível, criar os Estados Unidos de África, embora numa primeira ideia fosse só para os Estados ao sul do Saara.

A sua maior ambição era tornar exequível o que alguns visionários afro-americanos, nomeadamente o jamaicano naturalizado norte-americano, Marcus Garvey, pensaram nos primórdios do século XX, tal como o fez da década de 60 o ganês Kwane Nkrumah, e tornar-se no seu principal, se não mesmo, democraticamente o único, líder.

Tentou por duas ou três vezes introduzir essa ideia sem, contudo, a forçar.

Desta vez, e aproveitando-se do facto da presidência rotativa da União Africana ser de um País do Magreb, Kadhafi propôs-se para a presidência rotativa, esquecendo-se – ou talvez não, mas esperando que outros se fizessem esquecidos – que a Líbia pertence ao Mashreq e não ao Magreb, como muito bem relembrou o até hoje presidente em exercício e chefe de Estado da Tanzânia, Jakaya Kikwete ao jornalista da Televisão Pública de Angola (TPA).

Mas se bem tentou melhor consegui porque foi eleito presidente em exercício da União Africana (UA). De certo que os outros Chefes de Estado não estavam a dormir. Só que ninguém quer, nesta altura, afrontar aquele que parece gozar de certo prestígio – ou será acomodamento – junto de alguns sectores africanos, europeus e norte-americanos ao ponto de um dos seus filhos propor a criação, pasme-se, de um Conselho que agrupe as ONG’s afro-árabes pelos Direitos Humanos! Pasme-se, novamente).

Mas se conseguiu a presidência falhou o seu objectivo maior. Avançar para a criação de uns Estados Unidos de África com um Governo comum e único baseado no modelo da União Europeia.

Angola foi dos países que disseram, e muito bem, NÃO! Porque há ainda que solidificar os diferentes conceitos regionais antes de se avançar para um conceito global de unificação africana.

Há muitos interesses divergentes entre os dirigentes e populações africanas para que seja possível “unificar” África em torno de um objectivo como se tem provado, desde 1963, quer com a OUA quer com a UA.

O senhor coronel Muammar Kadhafi vai ter de esperar mais uns anos – espero que muitos e longos – manter-se como indigitado “
rei dos reis africanos”…

31 dezembro 2008

Como pode haver surpresa?

Um dirigente Bissau-guineense da Liga Guineense dos Direitos Humanos ficou surpreendido e desagradado pelo presidente João Bernardo (dito Nino) Vieira ter recebido e saudado o número dois do Golpe de Estado ocorrido na Guiné-Conakry após a morte de Conté.

E mais surpreendido ficou quando os dirigentes golpistas estão sob a alçada da União Africana e esta organização ameaçou suspender a República da Guiné.

Só se sente surpreendido quem anda um pouco distraído. Como poderia o senhor presidente “Nino” Vieira não receber quem o andou apoiar nos diferentes e diversos golpes por onde andou metido.

Basta relembrar 1984, 1998 ou os diferentes hipotéticos golpes contra Nino em 2008.

Quem não se recorda do regresso de Nino a Bissau a bordo de um helicóptero do exército de Conacry?

Era impossível não receber e saudar, como saudou, o número dois do golpe.
E se nos recordarmos que "Nino" Vieira andou a protelar a tomada de posse como primeiro-ministro do seu "inimigo público", vencedor de umas – até provas em contrário – eleições livres e justas, o que só deverá acontecer no primeiro dia útil de 2009. Há certas espinhas difíceis de engolir...

22 novembro 2008

UE e UA na mesma linha, a Paz… aonde?

(Só a Deutsche-Welle é que parece ver disto em África; os eurocratas não...; foto da RDW)

Segundo um artigo do matutino português Jornal de Notícias, a União Europeia (UE) e a União Africana (UA), de acordo com o secretário de Estado da Defesa francês, Jean-Marie Bockel, “lançaram (como, em petardos?) em Addis Abeba um novo programa de cooperação militar para reforçar a paz e a segurança em África

Ora aqui está algo que subscrevo na íntegra. Tanto a Europa como África o que precisam, nesta altura, é de reforçar a Paz e Seguranças em África. É que o Velho Mundo vendo o Continente que gerou a Humanidade em Paz e em Segurança, também terá o seu Continente em Paz e segurança e, nessa altura, já não haverá Abkázias, Chechénias, Ossétias, Geórgias ou escudos de mísseis anti-míssseis na Europa e arredores.

De facto, uma atitude brilhante de duas Organizações supranacionais onde as duas únicas coisas que diferem uma da outra são as duas Vogais. Quanto ao resto, a tuge é a mesma! (Ah!, para quem não saiba tuge é o mesmo que trampa ou a seu vernáculo afrancesado)

Quando vêm para a sede da UA fazer afirmações deste jaez só podem, indiscutivelmente, estarem a gozar com a chipala dos africanos.

O que pensar quando os órgãos informativos europeus abrem os seus noticiários internacionais com a crise militar e humanitária da RD Congo, com os ataques dos piratas nas águas próximas da Somália, a eternizada crise militar da Somália, ou, periodicamente, com os raptos e ataques ás zonas petrolíferas da Nigéria, ou com avocações, cada vez menos veladas, de Estados narco-Estados em África, já para não falar da recordação cada vez mais esbatida da ainda maior crise humanitária e militar africana que é o Darfur (será que Barroso e muchachos ainda se lembram do que isto é e por onde andaram?), ou a crise político-militar no Chade, entre outros pequenos factos como, por exemplo, a segurança periclitante que está na África Austral devido a um decrépito e autoritário ex-professor que se esqueceu do que foi ser Libertador, um tal senhor Mugabe, no Zimbabué.

Dizer que a UE e a UA estão a cooperar para a reforçar a Paz e Segurança em África, só mostra que os senhores europeus continuam a ver África, nos seus belíssimos escritórios sobranceiros e interessantes rios e mares, através dos Globos que uma qualquer empresa lhes ofereceu ou através dos magníficos documentários antropológicos de David ou Richard Attenborough para a mui britânica BBC.

Parem de gozar com a chipala dos africanos e respeitem-nos! Vejam as notícias e pensem em casos como o da criança de 12 anos, de nome Baraka, que ostenta a patente de general (in Diário de Notícias/Mundo, pág. 36) entre as milícias Patriotas da Resistência Congolesa (Pareco) ou Mai Mai que
apoiam e resguardam o exército(?) congolês e alguns dos seus aliados.

Dizer reforçar a Paz e Segurança em África seria óptimo se não fosse afronta aos milhões de refugiados que as pequenas crises e as vontades de pequenos ditadores criam!

Parem de gozar com a chipala dos africanos e respeitem-nos! Seremos simpáticos, provavelmente ingénuos em acreditar nas promessas Ocidentais e Chinesas de cooperação e boa-vontade, mas não continuaremos eternamente ignaros!

E quando a paciência esgotar…

10 novembro 2008

Vergonhoso!

Vergonhoso que os líderes da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) não tenham assumido, de vez, que Mugabe é um tirano despótico e não pode continuar a manter o seu País como coutada pessoal, suserado, sem rumo e cada vez mais empobrecido.

Vergonhoso, porque se acoitam na ideia de acordarem na maquinação de um Governo de Unidade Nacional, quando sabem que esse já foi um acordo já foi aceite há mais de dois meses e que Mugabe tem, sistematicamente, protelado.

Vergonhoso que os líderes da SADC adoptem a política britânica e norte-americana de "quem não está junto que se separe". Só que para não os considerarem britânicos ou norte-americanos adoptaram o inverso. Mugabe tem de ter os mesmos direitos e regalias que a Oposição que venceu as eleições, mesmo que, para isso, um Ministério-chave tenha de ser bicéfalo.

Vergonhoso que Angola mantenha uma política de apoio, por vezes nada discreta, a Mugabe, segundo a perspectiva que um Libertador é impoluto e nunca se altera. Mugabe foi, de facto um dos principais Libertadores do Zimbabué. Só que se tornou no que é actualmente e Angola perdeu uma grande oportunidade soberana de se afirmar – confirmar –, com firmeza, como um líder na região. Não é proteger os tiranos, que se afirma na cena internacional. E Angola, em vésperas das festas da Dipanda, sabe quanto isso é verdade…

Vergonhoso que, quando as acusações de participações estrangeiras no conflito no Congo Democrático são cada vez mais consistentes, não seja a União Africana a tomar uma posição firme e tenha de ser a SADC a pensar no envio de tropas de manutenção de Paz para, por certo, justificar a presença de tropas e conselheiros não congoleses no conflito.

Vergonhoso que a União Africana não consiga mostrar capacidade decisória e consinta que seja a União Europeia a mandar uma frota para combater a pirataria na Somália. Enquanto os países africanos se limitarem a considerar que só o exército e a aviação são factores de defesa continuaremos a ver África ser gerida por agentes externos ao Continente.

Vergonhoso!!